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Digressões Interiores: Lidamos com as palavras segundo os tempos

João Lourenço Roque - 02/04/2026 - 12:00

Sinto-me com pouca ou nenhuma inspiração, devido a coisas e manias minhas conjugadas com os reflexos e impactos dos cenários mundiais, pintados de guerras, confusões, desordens, ameaças e tragédias sem fim.

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João Lourenço Roque

Sinto-me com pouca ou nenhuma inspiração, devido a coisas e manias minhas conjugadas com os reflexos e impactos dos cenários mundiais, pintados de guerras, confusões, desordens, ameaças e tragédias sem fim. Retomei a escrita em Março, no dia 8 - dia da mulher e do aniversário da prima Maria, que saúdo com muita estima e amizade. Na véspera da tomada de posse do novo Presidente da República, de quem muito se espera. Compreendo e respeito as celebrações simbólicas e as chamadas de atenção especiais, mas não lhes atribuo grande relevo porque todos os dias são - ou deveriam ser - "dia da mulher…". Antes de avançar, com risco sério de perder-me, ergo o meu louvor e os meus agradecimentos a quem me trouxe o sol e os abraços que tão insistentemente pedi na crónica anterior. Sem os ter pedido, outros mimos e outras graças me chegaram. Entre eles, registo e agradeço: o vinho e o pão dos primos e primas Rafael e Idalina, Artur e Natália; o vinho e o mel do primo José e da prima Piedade. Boas coisas, sorte minha, neste "vale de lágrimas", poder contar com pessoas assim, pessoas que quanto mais só me vêem mais se lembram e aproximam de mim! Daquilo que pedi, na mesma crónica, faltaram as palavras novas. Não seria fácil, nestes ambientes e nestes pensamentos em que sobrevivemos, nem me admira porque também por aqui a maioria das conversas continua a girar em torno do susto medonho e do rasto de destruição que a tempestade Kristin deixou. Já acudimos a alguns danos, por exemplo substituindo ou remendando telhados, mas que fazer com milhares e milhares de pinheiros arrancados pelas raízes ou cortados pelo meio? Muitos deles atravancaram de tal modo os caminhos que só com muito custo se consegue passar. Até quando continuaremos nestes bloqueios e nestas caminhadas que se assemelham a "treinos olímpicos" de atletismo para "provas de barreiras"... Quase já esquecemos aqueles dias em que nos faltou a luz e em que as noites voltaram a ser noites, mas mete dó olhar a floresta no estado em que ficou e continua. Seria bom se nos uníssemos e tentássemos encontrar remédios ou soluções comuns, com a ajuda indispensável das autarquias. Mas, pelo andar da carruagem, prevalecerá, como de costume, o egoísmo e o interesse pessoal...Alguns já se acertaram com madeireiros e já garantiram cortes e limpezas nas matas. Outros, desde as primeiras horas, não esperaram por "pão de venda" e deitaram mãos à obra, valendo-se das forças que ainda têm e da maquinaria que possuem. Quanto a mim, dono de duas courelas, e a outros mais, suspeito que nenhum madeireiro virá ter connosco, salvo tarde e a más horas e oferecendo tuta e meia pela madeira. Nada de novo, também por aqui o mundo pertence aos mais afortunados... Nesta e em outras tempestades, a comunicação social não quis saber de nós, excepto o "Reconquista" que fez reportagem em algumas povoações da freguesia de Sarzedas, todas do lado do poente. Pena foi terem-se esquecido dos Calvos e de outras terras nas bandas do sol nascente. Parece sina! Duas freguesias na mesma freguesia…

Faltaram as palavras novas, repito. Pouco importa, tudo é relativo e palavras sempre as acharemos, gastas ou por gastar. Palavras que unem ou desunem, palavras em que nos entendemos ou desentendemos… Lidamos com as palavras segundo as circunstâncias, as aprendizagens, as sensibilidades, as histórias de vida, os sentimentos, os usos e costumes. Dito de outra maneira, lidamos com as palavras segundo os tempos e os modos. Em momentos de despedida ocasional, servimo-nos de expressões diversas: até à próxima, fiquem-se com Deus e haja saúde, até um dia destes, até breve, até quando calhar, até quando Deus quiser, até mais ver, inté… Nos funerais a que vou, por obrigações familiares e sentimentais ou por laços de vizinhança, acho estranhas ou desnecessárias quase todas as conversas. Há quem fale de tudo e de nada com grande espavento, sem quaisquer peias ou travões. Há quem recorra a alguns "ensinamentos" ou "sentenças" tradicionais: não há que estranhar, ela é nossa (ela, a morte, bem entendido), é a vida, nós não somos daqui, sofreu muito ganhou o céu, cada qual vai na sua vez em a hora chegando…Ouço sem verdadeiramente ouvir ou concordo sem concordar... Entendo e não entendo. Por respeito ou educação, limito-me a pequenos gestos e sinais. Digam o que disserem, fico-me nos meus pensamentos e tristezas e no meu voto habitual: que descanse em paz. Ali e em tantos outros sítios, em vão procuro o sentido da vida! Não sei porquê, funerais há em que me corre na memória aquela quadra popular de um fado de Coimbra: "Eu estou a dever à terra/ A terra está-me devendo/ A terra paga-me em vida/ Eu pago à terra morrendo".

Sigo nas palavras, mas afasto-me destes cenários e mistérios. Salto para outros lugares, memórias e recordações. Procuro-te, imagino-te e vejo-te nas ruas e janelas da nossa cidade, nos amores vividos e cantados: "Dá-me os teus olhos, profundos/ E pode o mundo acabar/ Q`importa o mundo se há mundos/ Lá dentro do teu olhar".

Não sei que esperança ainda me leva ao “Domingo de Ramos” na vila de Sarzedas. Tudo se perdeu ou mudou. E eu mais que ninguém… Quem me dera outra vez contigo, nas cerimónias da “Semana Santa”!

 

COMENTÁRIOS

JMarques
Este ano
Como todas as moedas, esta também tem duas faces:
A boa a amizade dos primos e primas e alguns vizinhos, a outra, a má, é que andam para ai, uma meia dúzia de TRUMP que querem resolver todos os problemas pela base/raiz.