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Digressões Interiores: Linguagem à moda antiga – 5

João Lourenço Roque - 16/07/2020 - 0:37

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Farto da pandemia e da linguagem actual que não me largam, deixa-os de lado, ou faço de conta, e retorno à linguagem à moda antiga nos territórios sarzedenses, avolumando este “dicionário” que, se bem me recordo, já vai no quinto capítulo. “Dicionário” ou melhor “arremedo” de dicionário que, ao que sei, tanta curiosidade e tantas reminiscências desperta sob o ponto de vista humanístico e cultural. Outras formas de mergulhar no passado ao encontro do “povo interior” que, em grande parte, ainda somos. Além dos sarzedenses, que assim mais e melhor se aproximam das raízes e dos tempos da sua infância e da sua identidade, mesmo tu – que és de fora – me incentivas em tais pesquisas e testemunhos. Desta vez registo os seguintes termos e expressões: Achascmar (falar em tom de ralho, de repreensão ou discórdia), acintcho (acincho), ajunter (juntar), amarisca (amarga), amarlinha (amarelinha), amontlia (almotolia), aparrnar (segurar ou atar as pernas), apoguintado (preocupado, em cuidados), aproveiter (aproveitar), arrabanhar (apanhar, levar tudo), arrabucedo (rebuçado), arrenegados (zangados, de relações cortadas), arrmer (arrumar, bater em alguém ou num animal – “Arrmei-lhe c’a tanaz...”), assacudir (sacudir), assego (sossego), assgalhar (aliciar, despertar ainda mais a vontade ou o instinto –“Ela já andava descuida, assgalharam-na, a tonta deixou-se incabanar e deu no que deu…”), assobar (atiçar), astraver-se (atrever-se, conseguir, ser capaz –“O raio do velho pinsava q’inda s’astravia a andar de burro…”), atchuer (manietar e agredir alguém –“Meteu-se comigo a ateimer, mai isto e mai aquilo, e a acaçoar mas eu atchuei-o bem atchuedo…”), atrafícios (pequenos arranjos, consertos e invenções –“Eu sempre fui um podão, mas contavam os antigos que o meu dzavô era danado p’atrafícios…”), atramelar (falar alto e com pouco nexo). Bnecro (boneco –“Quando andava na escola o q’eu mai gostava de fazer eram bnecros…”), boída (bebida), borna (morna –“A nha garganta é de má raça, só me dou bem com aúgua borna…”), bureco (buraco). Catolco (católico, bem disposto, bem de saúde –“Ó coisa, andava na horta, pela tchina do calor, esfaimada, deram-me os olhos numa fgueira, atrei-me ós figos ainda malhões e quentes, desde intão tenho andado pouco catolca dos beiços, do estômado e da barriga…”), çdede (cidade), chainça (sítio ou zona muito quente), chavascada (repreensão forte e dura –“Há munto que non me confessava, mas a nha mãe deu-me cá uma chavascada…), convdédo (convidado), cortar línguas (falar línguas estrangeiras –“Sempre ouvi dizer que por modos ningém sabia cortar línguas cma ele…”), côznher (cozinhar), crier (criar), criedo (criado, crescido), curedo (curado, ensinado pela vida, experiente), custer (custar), Dabasnoites (Deus lhe dê boas noites), Dabastardes (Deus lhe dê boas tardes), Dabonsdias (Deus lhe dê bons dias), dar à batrácula (dar à língua, conversar demoradamente e sobre vários assuntos), darrotar (derrotar, estragar), dentes queixeis (dentes molares), dixe (disse), dma (de uma), dzalmado (sem respeito, sem vergonha, indiferente), dzavô (bisavô), dzavó (bisavó), dzavós (bisavós), dzunher-se (trabalhar bem e com rapidez –“Contavam-me os meus pais que na terra pa travalhar ninguém tchgava ós meus dzavós, nada lhes metia medo, dzunhevam-se a bem dzunher...”). Esborralhar (estragar, destruir –“Aquele dzalmado esborralhou o ninho das indorinhas…”), escádias (escadas), escraver (escrever –“Pedi-lhe pa m’escraver mâ carta pó meu namorado, eu a ditar, mas aquela espravoada meteu lá as doideiras que quis…”), escarolar (ter que pagar bom dinheiro), espravoado (com pouco juízo, exaltado, amigo de brincar e de gozar com os outros), esvoltear (remexer, dar voltas e mais voltas –“Esvolteei tudo, o cesto da costura, as gavetas à preicura d’um carro de linhas e nada, non houve maneira do incontrar…”), estômado (estômago). Fitbol (futebol), fquer (ficar), fruntcho (furúnculo –“Em garotita nasceram-me uns fruntchos ó pé do rabo, a nha mãezinha, aquela santinha, lavava-mos com água de malvas, mas ao ver aquilo mal assombrado correu comigo ó barbeiro que m’espetou logo c’uma injecção…”. Galfarro (atrevido, fanfarrão, mal comportado), guintcher (guinchar). Humdéde (humidade), humldéde (humildade). Imbair (iludir, enganar –“Bem a avzeram q’ele non era boa rês mas aquela manhouva foi na cantiga e deixou-se imbair…”), imbobrar (encharcar, temperar com excesso –“O meu home quando a comida pedia azeite imbobrava tudo, ó quai que despejava a amontlia…”), imbora (embora), incabanar (chamar, desafiar, aliciar para caminhos de transgressão ou acções maliciosas), incapucedo (encapuçado), indreiter (endireitar), infardar (enfardar, comer muito), infarrusqédo (enfarruscado), intchêr (encher), inteiro (animal não castrado). Jardar (caminhar muito, esforçar-se bastante e fazer pouco –“Todo o dia jardei e o ganho mal se viu…”), jardner (jardinar, trabalhar na horta), julguer (julgar). Lambuzedo (sujo de comida), lhnéça (linhaça), limber (lamber – “Nas bodas quando vinha o arroz doce, eu e outras gulosas cma mim inté limbíamos as colheres…”). Madrónho (medronho), matchouco (montinho de erva, de milho, de cabelos, etc. –“Este ano a nha sminteira do milho calhou-me mal, ou non nasceu ó nasceu ós matchoucos), mau olhado (feitiço, inveja), mdonho ( medonho), mrredo (mirrado, muito magro, fraco –“O meu home parecia que vindia saúde, darepente deixou-se ó comer e agora está tão mrredo que mete dó, ninguém me tira da cabeça que non foi mau olhado…”), mzarávl (miserável). Naspreira (nespereira), novelha (novata). Ó manina (ó menina), ouzio (mimo). Panegar (penar, sofrer), paraceiro (parceiro, companheiro –“Estávamos a jogar à bisca, o meu paraceiro, já de copo, pantou-se a dromir e a mostrar o jogo, os outros sempre a ganhar, a pesquerem o olho e ele feito toupeira…”), partes fracas (órgãos genitais), pasqé (parece que é – “Então, a Senhora vê melhor com estas lentes? Ó Snhor Dótor pasqé à mesma, pasqé igual…”) pasqsim (parece que sim), pela tchina do calor (pela força do calor, nas horas de maior calor), pesquer (pescar, piscar), pinguer (pingar), pito (pintainho), podão (indivíduo sem jeito ou habilidade), preicura (procura), prinder (prender), proparo (facto, estado ou situação censuráveis –“Já vistes o que fizestes à camisa, toda pingueda, suja de vinho, ó que lindo proparo…”). Qantvés tu (olha tu, já tu, agora tu – “Já hoje me fartei de travalhar, qantvés tu…”), queimoso (picante, curado-queijo queimoso), queixer-se (queixar-se). Raclamar (reclamar, fazer barulho em jeito de ralho), rais (raios…), rais ta passira (forma de ralhar às cabras ou a outros animais…), rapargota (menina já crescida, que dá nas vistas), ratcha (racha), ratchar (rachar), rlher (rilhar, mastigar demoradamente –“Já me faltam os dentes ó quai todos, pa comer alguma coisa mai dura farto-me de rlher…”), rouceiro (mandrião, manhoso), roufnher (roufinhar). Sagorro (patego, mal vestido, “serrano”), saltarosco (osga), sgundo (segundo), sintir (sentir), sminteira (sementeira), suedo (suado). Tabarrneiro (taberneiro, libelinha), taloca (buraco estreito no tronco das árvores), tanaz (tenaz), tanganho (lenha miúda), tanoco (pau curto e seco), tchafurder (chafurdar), tchamceda (chamiçada), tchamiço (chamiço –“Fui à lenha que já non tinha tchamiço no canto mas estava tudo arrabanhado, só incontrei uns tanganhos, inda po riba dzatou a tchver, tchguei a casa cma um pito…”), tchanfona (mulher com bom corpo e atraente –“Pedi-lhe namoro às caladinhas mas aquela tchanfona deve ter outro e deu-me logo pa trás. Fquei mai tchumbedo…”), tchanfornar (trabalhar sem parança...), tcharola (arranjo, obra ou maquineta, sem jeito e de pouca ou nenhuma valia), tchave (chave), tchôrar (chorar), tchórça (pequena cabana ou abrigo de colmo), tchormela (“As cabras nesta altura non dão leite ó quai nenhum, só ma tchormela…”), tchumbedo (chumbado, desiludido, desanimado), travalhadela (azar, percalço, enrascanço), travalhar (trabalhar), trogalheira (pessoa desajeitada). Um quartel (uma refeição), usedo (usado, velho, gasto – “A minha às vezes inda quer e puxa por mim mas eu já estou munto usedo e o tal amigo já meteu os papéis pa reforma e deixa-me im pouco...”). Vinho a imbarrar (vinho no pipo, a fazer-se vinagre – “O meu vzinho tchamou-me à adega mas à primeira golada sinti logo q’o vinho já estava a imbarrar. Boí o primeiro copo pa non fazer desfeita mas o sgundo ó ele o boeu ou lá ficou à espera de melhor boca…”), vinho palhete (vinho fraco, de cor rosada), vintania (ventania). Xarabésco (muito falador, com fracas conversas). Zargata (zaragata).

Bem longo, e mesmo assim tão incompleto, este capítulo. Outros virão, se Deus quiser. Com semelhantes palavras e expressões que poucos entendem e muitos acham rudes e toscas. Dou-lhes inteira razão, mas ainda mais “toscas” me parecem tantas formas e fórmulas muito em voga. Por exemplo: um grande beijinho, continuação, boa continuação, altamente, dispositivo musculado, negativar. Deixemos isso e os medos da pandemia. Outras são as minhas angústias e perturbações. Fica bem, um beijo, adeus até à próxima...

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