Em meados de Novembro, colhi a azeitona. Bastou um dia com a ajuda de um pequeno rancho, munido de novas tecnologias. Embora pouca, deu bom azeite.
Em meados de Novembro, colhi a azeitona. Bastou um dia com a ajuda de um pequeno rancho, munido de novas tecnologias. Embora pouca, deu bom azeite. Mas este ano, saiu-me bem caro o azeite. Quando, ao princípio daquela noite que me parecia bendita, fui por ele, ao lagar das Ferrarias, um javali saltou do mato como um relâmpago a atravessar a estrada, na área do Outeiro, embatendo com enorme estrondo na dianteira do carro. Fiquei perplexo e desorientado, demorei a recompor-me mas aliviou-me o facto de o carro, embora com grandes estragos, ainda funcionar. Segui viagem até ao lagar, onde os prestáveis e habilidosos empregados me ajudaram a "disfarçar" os danos no carro e a carregar as bilhas do azeite. Logo no dia seguinte, dirigi-me à oficina da marca em Castelo Branco para tratar dos consertos, o mais depressa possível, cujos custos chegariam a valores certamente maiores que o valor de mercado do carro. Foi pagar e pronto! De nada valeu bater à porta das autarquias, das associações de caçadores e das entidades responsáveis nos domínios públicos da natureza e do ambiente. Ainda me lembrei de apresentar a factura ao javali, mas desisti dessas burocracias porque não o tornei a ver nem ele teria seguro! Ora pouco, ora muito, de tudo me acontece na vida! A poucas pessoas contei o sucedido - e o javali por certo não disse nada a ninguém - mas a notícia depressa se espalhou, correndo de terra em terra, de café em café, de jornal em jornal. De tal modo que não têm conto as pessoas que me telefonaram ou que mal me avistam logo me rodeiam e interrogam sobre o desastre, adiantando ocorrências semelhantes ou piores. À minha maneira tento ou finjo esquecer, mesmo não esquecendo. Ficou o "rombo" na conta bancária! Ficou o susto! Ficou o medo de conduzir à noite nas estradas da região! Ficou outro filme nos filmes da minha vida!
Por contraste com esta história acidentada, desanuvio com o relato de um episódio com alguma graça. O "povo" dos Calvos tem fama e proveito de ser ou parecer manhoso e brincalhão. Ainda antes ou já depois - não me lembro bem - da apanha da minha azeitona, num daqueles dias em que me alistei no "rancho" do meu irmão e da Otília, calhou-me a grata surpresa de encontrar o "rancho" do primo Álvaro. Além da habitual troca de saudações, deu-me para a paródia, mais ou menos nestes termos: Ai ó primos, que sorte a minha, esqueci-me do farnel em casa, deu-me a fome, não sabia bem que rumo tomar, mas o detector de "merendas" que apliquei no telemóvel orientou-me para aqui na hora certa. Dito isto, o Álvaro, que tem sempre resposta pronta, depressa me arrumou: "Ó primo, leve-o urgentemente à revisão, está a funcionar mal, nós hoje não trouxemos merenda…" Assim falou o Álvaro mas podia ter sido a irmã, a Manuela, também muito esperta e repentista!
Dantes o tempo da azeitona prolongava-se até meados ou finais de Janeiro. Agora, raramente ultrapassa os finais de Novembro. Não sei que fazer nos próximos meses. Talvez caminhar nas passadas e nas vozes que ainda me chamam. Talvez viajar nas cores e nos sons do outono e do inverno, ou nas luzes e mensagens do Natal. Talvez repetir os cânticos ao "Menino Jesus". Talvez adormecer e acordar na estrela do presépio. Ninguém sabe, ninguém me diz onde ficou o nosso Natal...E o Natal de tantas pessoas por esse mundo fora, vítimas de agressões, ódios, violências, desgraças, medos e indiferenças sem fim…
Tudo passa, tudo muda, ou parece mudar. A vida é feita de mudanças, boas ou más, superficiais ou profundas, efémeras ou definitivas. Há mundos que pouco ou nada me dizem. Outros agarram-me e prendem-me com laçadas físicas e espirituais, tocam-me no corpo e na alma. Falo outra vez de São Domingos. Ali, me vejo e sinto desde a meninice à velhice. Primeiro em redor ou dentro da capela, no recreio ou nas carteiras da escola em que fiz a 4ª. classe. Depois, tantos anos volvidos, nos cafés, nas oficinas e nas bombas de gasolina. Lembro, com profunda saudade, o "café da Fátima", ponto certo de encontros e de convívios inesquecíveis. Desde que fechou, aquele espaço, que era ou parecia o "centro do mundo", tornou-se um deserto que tanto me custa atravessar. Restam, felizmente, a mercearia da Filipa (embora sem os anteriores rasgos ou sinais de grande procura e movimento) e o café "Os Amigos" que passei a frequentar com regularidade. Apeguei-me à gentileza e à simpatia dos donos - a Ortelinda e o Manuel - e aos momentos de novos encontros e surpresas. Há tempos fixei-me por instantes no rosto e nos gestos de uma mulher de meia-idade, muito enigmática e interessante. Não nos conhecíamos, nem ficámos a conhecer-nos, mas foi bom encontrá-la e trocar breves palavras e silêncios. Aceitou que lhe pagasse o café e quis saber quem eu era. Cá fora, espreitámos o sol radioso e fumámos um cigarro. Despedimo-nos sem despedida. Nem o nome me disse. Por certo nunca mais nos veremos, mas ainda guardo a sua imagem e dela me lembro sempre que regresso àquele café ou quando passo na sua terra. E tantas vezes lá passo, sem ver ninguém. Recentemente, num dia muito fechado e invernoso, alegrei-me imenso ao encontrar ali a prima Zélia que muito estimo e admiro. Deu para nos cumprimentarmos e sabermos da família, apesar das pressas por razões e caminhos diferentes. Despedimo-nos até qualquer dia. Por largos anos pousei, entre alegrias e tristezas fundas, no "café da Fátima", mas já não estranho pousar no café "Os Amigos". Sempre que lá vou pouco me demoro, mas parto sempre com vontade de regressar.
Deixo os cafés e as conversas de São Domingos. Deixo "o conto do javali" e os episódios da azeitona. Deixo as concertinas e as violas beiroas. Volto às guitarras e aos fados de Coimbra: "...Junto à fonte vão beber/ Duas meigas andorinhas/ Morrem de amor sem saber/ Que as águas são penas minhas".
A 10 de Dezembro morreu o João Morgado (João Lourenço Gonçalves), um bom vizinho, um bom amigo. Recordo-o em diversas páginas da sua vida, nos Calvos, na França, em Castelo Branco. Evoco a sua memória numa palavra de muita tristeza e saudade.
Resultado de tantas safras de Azeite Novo.