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Do choque ao controlo: o legado invisível de 11/09/2001 (II)

Mário Afonso - 12/02/2026 - 9:02

11 de setembro de 2001.

Por volta da hora do almoço, lembro-me de ligar a televisão e, pouco depois, ver um avião embater numa das Torres Gémeas em Nova Iorque. Uma nuvem enorme de fumo enchia o ecrã. A minha reação imediata foi de incredulidade — tudo aquilo parecia irreal, quase cinematográfico. E, mesmo para Hollywood, era demasiado. Nunca imaginei que o mundo estava prestes a mudar para sempre.

8h46 (12h46 em Portugal): dá-se início ao maior atentado terrorista da História contemporânea — um ataque que alterou mais do que a paisagem de Nova Iorque. Mudou o Mundo. Mudou as pessoas. Mudou as políticas. Perpetrado pela Al-Qaeda, este atentado marcou profundamente o início da década e, vinte e cinco anos depois, as suas ondas de choque continuam a moldar a vida coletiva e individual em todo o planeta.

Hoje, em 2026, é difícil negar: o novo normal passou a ser a vulnerabilidade. O medo e a desconfiança espalharam-se globalmente. Os Estados reforçaram como nunca as políticas de segurança; somos observados e rastreados de forma crescente. Num curto espaço de tempo, as sociedades cederam direitos civis em nome da proteção coletiva.

Nesse processo, a confiança e a privacidade tornaram-se também vítimas globais.

Uma das “vitórias” do terrorismo sem fronteiras não reside apenas na destruição física, mas na criação de um estado permanente de alerta — um estado que influencia desde políticas de imigração até discursos populistas que exploram a psicologia do medo. O 11 de Setembro tornou-se um ponto de rutura psicológico e político. As imagens das torres em colapso não destruíram apenas edifícios: abalaram a ideia de que a globalização e o avanço tecnológico garantiriam maior segurança e estabilidade. Para uma geração inteira, a sensação de vulnerabilidade global passou a fazer parte do quotidiano.

A chamada “Guerra ao Terror” prolongou conflitos, redefiniu alianças e legitimou intervenções cujas consequências ainda hoje se projetam no cenário internacional. Muitos governos reforçaram mecanismos de vigilância e controlo, sempre em nome da segurança coletiva. Em vários casos, esse reforço criou um vazio onde novos radicalismos encontraram espaço para crescer.

Vivemos num mundo simultaneamente mais conectado e mais desconfiado; mais protegido, mas talvez menos livre. A grande questão já não é apenas como evitar novas tragédias — é que tipo de sociedade estamos dispostos a construir para o fazer. Ou seja: até que ponto estamos dispostos a abdicar de liberdades individuais para obtermos uma sensação de segurança?

A privacidade deixou de ser apenas um direito individual para se tornar uma variável dentro do conceito de “risco coletivo”. Por um lado, leis de vigilância e coordenação internacional

podem, de facto, evitar ataques e salvar vidas. Por outro, o rastreio constante do cidadão comum tem impacto direto nos direitos civis. Quantas vezes já ouvimos a frase perigosa: “Se não tens nada a esconder, qual é o problema?” Pois…

O que aprendemos? O inimigo pode ser invisível e global, mas o maior desafio continua a ser não permitir que o medo destrua os valores que procuramos proteger. A segurança não pode justificar a erosão contínua da privacidade e da liberdade.

O que sentimos? Apesar da evolução tecnológica aplicada à vigilância, as causas sociais e políticas do radicalismo continuam na base do debate sobre segurança internacional. Não basta reforçar sistemas: é preciso compreender realidades.

A pergunta que permanece: Quanta liberdade estamos dispostos a trocar por uma mera perceção de segurança?

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