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Editorial: Arde também o jornalismo

José Júlio Cruz - 19/09/2024 - 9:00

De todas as desgraças que os incêndios florestais acarretam, a perda de vidas humanas é inquestionavelmente a maior. As incansáveis labaredas levam aquilo que de mais precioso existe. Fica órfão um país inteiro, incapaz de, ano após ano, mitigar ou aprender com outras desgraças antecedentes. E mais virão…

Mas, neste mar de chamas, arde também o jornalismo. A cedência indecente às audiências fáceis para servir um público ávido de sangue leva, tal como na transmissão da guerra em direto e nas intermináveis discussões futebolísticas, a que fiquem para trás as mais elementares regras da profissão. As da profissão e até as da educação. E outras…

Chega a ser arrepiante ver os meus colegas serem atirados literalmente para o inferno, obrigados apenas a satisfazerem os apetites da turba e os interesses maquiavélicos dos grupos económicos que lhes pagam o ordenado. Sem sermos capazes de contrariar a voz de comando, ardemos todos nesta fogueira. O mesmo se passa nos canais públicos, onde se esperava um pouco mais de decoro.

O jornalismo não é isto. A transmissão em direto de um incêndio, de uma guerra, de alguém a morrer ou de uma discussão de futebol durante horas e horas dias dias a fio é obscenidade.

Disto também se alimenta o populismo. Depois queixem-se!

 

COMENTÁRIOS

João Almeida
à muito tempo atrás
Caro José Júlio Cruz. Estou na área já lá vão 30 anos. Também fui repórter de imagem em televisão durante uns aninhos. Apenas para dizer que igualo o seu pensamento. Não diria melhor! Jornalismo a "explorar" as emoções e dela fazer negócio já por si é outro incendio.
Saudações