Um dos traços mais marcantes da sociedade portuguesa é a persistência de uma visão elitista redutora e que continua a influenciar negativamente comportamentos sociais, económicos e políticos. É comum observar pessoas ou grupos que, devido à profissão, formação académica ou poder económico e político, se colocam num patamar superior, desvalorizando o trabalho e a opinião de muitos outros. Esta atitude, profundamente enraizada na nossa cultura, reflete uma hierarquia social que privilegia o estatuto em detrimento do respeito e da valorização coletiva. Quem não pertence a determinados círculos — ou, como se diz hoje, a um “nicho” — tende a ser marginalizado.
Portugal tem uma tradição hierárquica marcada por classes sociais e títulos, que ainda condiciona mentalidades. Este fenómeno com raízes históricas na aristocracia e na burguesia, adaptou-se, ao longo dos tempos, às mudanças políticas e económicas, mantendo traços evidentes até hoje. A separação entre “quem pensa” e “quem executa” deriva de uma tradição que desvalorizava o trabalho manual face ao intelectual — uma mentalidade que persiste em alguns setores.
Podemos encontrar muitos exemplos desta postura elitista em diferentes setores da vida portuguesa. A valorização excessiva de títulos académicos - doutoramentos ou formação em universidades prestigiadas são vistos como símbolos de superioridade, enquanto outras competências, mais ligadas ao saber-fazer são desconsideradas. Barreiras sociais criadas por diferenças económicas: a ideia de “classe superior” continua presente, reforçada por redes políticas e empresariais que alimentam círculos fechados e práticas de exclusão. Concentração de poder: os mesmos nomes circulam entre conselhos de administração, reguladores e cargos governamentais, criando uma “porta giratória” que afasta decisões do cidadão comum. Distinção entre alta cultura e cultura popular: ópera e literatura clássica, por exemplo, são valorizadas em detrimento de manifestações artísticas mais populares, reforçando hierarquias simbólicas. Novas elites digitais: redes sociais democratizaram parte do espaço, mas também criaram novas elites — influencers, algoritmos e grandes plataformas. Discriminação subtil: julgamentos baseados em vestuário, sotaque, forma de falar ou origem continuam a existir. Cargos como ministros, secretários de Estado e presidentes de câmara, presidentes disto e daquilo tendem a ser ocupados por pessoas que circulam nos mesmos círculos sociais e familiares, perpetuando exclusão e favoritismo.
Em vez de promover mérito e inovação, este elitismo perpetua barreiras sociais e desigualdades, criando uma sensação de exclusão para quem está fora desses círculos. A meritocracia, tão falada na boca de muitos, revela-se muitas vezes um mito.
António Horta Osório, figura de destaque no setor financeiro, afirmou um dia: “O maior problema de Portugal é o falhanço das “elites””, apontando para a necessidade de gestores mais competentes e exigentes.
Num país que se orgulha da igualdade de oportunidades, esta realidade exige reflexão. É urgente promover uma cultura baseada na equidade e no reconhecimento do contributo de todos, para construir uma sociedade mais justa e inclusiva — sobretudo quando assistimos, por exemplo, a comportamentos vergonhosos no nosso parlamento, nas redes sociais ou nos debates em televisão.