O tema religioso encontra-se hoje na agenda mediática, com a chegada ao poder de alguns políticos que se mostram em público com a Bíblia e o terço na mão, fazendo da religião um poderoso meio de chegar e de se manterem no poder. Entre outros, recordemos os casos do evangélico Bolsonaro no Brasil e de Salvini, na católica Itália. Como se sabe, são comportamentos condenados pelas Escrituras. “Não invocarás o nome de Deus em vão”.
Na verdade, o tema da religiosidade tornou-se nos nossos tempos de mudança, um problema atual e complexo que merece ser repensado, sem paixão e com toda a honestidade intelectual. Cada época o deve tratar com novas perspetivas, uma vez que o ser humano, historicamente, sempre se tem manifestado como “homo religiosus”. Deste modo, esta temática que a muitos interroga direta ou indiretamente merece ser continuamente revisitada.
Certamente, será de aceitação fácil, a seguinte tese: cada vez mais, a nível socio-religioso, estamos a construir e a consolidar uma marca que nos identifica com uma sociedade pós-moderna, com abertura à pluralidade.
Toda esta caminhada terá sido iniciada ou potenciada com a revolução do 25 de abril de 1974, posteriormente prosseguida com a nossa adesão à UE, em 01.01. 1986. A partir destas datas simbólicas e marcantes, o nosso país foi-se tornando mais multifacetado, híbrido e multicultural, deixando para trás as longas noites de breu, da tenebrosa e sufocante ditadura do Estado Novo.
Um país cinzento que viveu encerrado em si, lentamente se foi afastando do seu passado, abrindo-se a novas culturas, partilhando diferentes valores e novos comportamentos, face às diversas crenças religiosas.
Neste clima de abertura a novas realidades, muitos se interrogam acerca do futuro dos nossos seculares valores religiosos, éticos e morais. Entre eles, a sólida tradição de sermos um país católico, seguidor dos valores inerentes à raiz da nossa multisecular identidade católica.
Perante tais interrogações, uma pertinente questão se nos pode impor e à qual não se deverá fugir. Estaremos perante o regresso ou ao fim da nossa secular religiosidade?
Para respondermos a esta questão, temos que compreender as alterações havidas nas identidades religiosas e nos valores e estilos de vida, inerentes à designada pós- modernidade. É que as mudanças havidas no nosso país nos séculos XX e XXI obrigam-nos a repensar a nossa secular religiosidade.
Ensina-nos a sociologia que o nosso país se encontra num complexo movimento antagónico, embora complementar. Trata-se do regresso das religiosidades, mas também o fim de algumas. Uma consequência lógica da nossa sociedade liberal, individualista, secular e laica, em processo acelerado de descristianização, a ritmo europeu.
Por um lado, a religião continua a revelar em Portugal um forte peso simbólico nas populações, maioritariamente católicas. Mas, por outro, medra o distanciamento em relação à igreja católica e às suas práticas rituais, sobretudo, entre as camadas mais jovens da população. Muitos vêm optando por não se casar pela igreja, não batizar os filhos, viver como eternos namorados, divorciar-se frequentemente e aumentar o número das famílias recompostas. Outros sintomas da descristianização do país é a constatação de que as celebrações dominicais se encontram cada vez mais vazias, sobretudo de jovens e crianças. A interrupção voluntária da gravidez em 2007, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, em 2010 e ainda a possibilidade destes casais poderem adotar crianças em 2013. Quatro anos depois, em 2017, a legalização da procriação medicamente assistida.
Por outro lado, constata-se que a juventude continua a vibrar com as visitas papais a Fátima, com as Jornadas diocesanas e mundiais da Juventude - a próxima será em Lisboa - e com a sua participação em festas e romarias. Verificamos ainda que, mantendo nós uma religiosidade enraizada, continuamos a viver um calendário anual, pautado pelos feriados religiosos e as festividades do Natal e da Páscoa.
Porém, constatam-se também que, de geração para geração, vai ocorrendo um maior desinteresse em relação à tradicional prática religiosa, dando lugar a uma mais sincrética, heterodoxa e pessoal religiosidade, eivada de subjetivação do sentimento religioso. Um individualismo, segundo o qual, cada um tende a escolher “a la carte” a ementa que lhe é proposta pela igreja oficial. Mudam-se os tempos, mudam - se as práticas religiosas.