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Ernesto F. Rocha (1955–2026): Médico e humanista

Fernando M. Jorge - 19/03/2026 - 9:00

Porque há pessoas que continuam a viver na memória agradecida dos outros. E o Ernesto era uma dessas pessoas.

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A medicina portuguesa perdeu no início de fevereiro uma das suas figuras mais marcantes: o médico nefrologista Ernesto Rocha, aos 70 anos. Com ele desaparece não apenas um clínico de excelência, mas um homem raro, cuja inteligência, humanidade e sentido de missão deixaram uma marca profunda em gerações de doentes, colegas e amigos.
Para muitos foi um médico excepcional. Para outros, um líder respeitado. Para os seus doentes, um porto de abrigo e para os amigos — e eu conto-me entre eles — foi simplesmente um irmão.
Foi no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco, que Ernesto Rocha construiu a obra pela qual será sempre lembrado. Fundador do Serviço de Nefrologia daquela instituição, dirigiu-o durante mais de três décadas, transformando-o num serviço de referência Nacional. Ali criou uma verdadeira escola clínica, baseada no rigor científico, no trabalho de equipa e numa dedicação absoluta aos doentes renais, em particular aos que dependiam da hemodiálise para viver. Mas Castelo Branco e o Hospital perderam algo ainda mais profundo: um homem que fazia parte da alma do Hospital Amato Lusitano, onde dedicou toda uma vida.
O que começou como um projeto tornou-se, pelas suas mãos, um serviço de referência em Portugal e na Europa. Mas Ernesto nunca falava de “obra”. Falava de pessoas. Falava dos seus doentes.
Ao longo desses anos, Ernesto Rocha tornou-se uma presença central na vida hospitalar e médica da região. Durante mais de vinte anos presidiu à Ordem dos Médicos no distrito de Castelo Branco, desempenhando essa função com a mesma firmeza ética, independência e sentido de responsabilidade que pautavam o seu exercício clínico. Era ouvido e respeitado, não apenas pela sua autoridade científica, mas pela integridade e clareza com que defendia a dignidade da profissão médica.
Apesar do prestígio que granjeou, nunca procurou o poder institucional. Foi por diversas vezes convidado para assumir a direção do hospital. Seria um caminho natural para alguém com a sua autoridade e respeito entre pares. Recusou sempre. Preferia permanecer junto daqueles que considerava o centro da sua vocação: os doentes. “Os meus doentes precisam de mim”, dizia frequentemente. E quem o conheceu sabe que não era uma frase feita.
Dentro do hospital era um líder natural. No serviço que fundou e dirigiu, era respeitado como poucos. Mas a sua influência estendia-se muito para além da nefrologia. Colegas de diferentes especialidades reconheciam nele uma figura agregadora, um médico de grande dimensão moral e intelectual.
Os doentes adoravam-no. Não apenas pela competência médica — que era indiscutível — mas pela forma como os tratava: com respeito, proximidade e um raro sentido de humanidade. Sabia ouvir, sabia explicar e sabia estar. Muitas vezes desarmava a angústia com um humor fino e requintado, marca muito própria da sua personalidade. Muitas vezes usava-o para aliviar o peso das doenças duras que acompanhava todos os dias. Sabia que a medicina também se faz de palavras, de silêncio e de presença.
Homem de grande cultura e espírito humanista, Ernesto Rocha era também um desportista disciplinado. Praticava diariamente atletismo e ciclismo como amador, atividades que cultivava com a mesma regularidade e determinação que dedicava à medicina. Para quem o conhecia, essa rotina era também um reflexo do seu caráter: rigor, perseverança e alegria de viver.
Para os amigos, porém, Ernesto Rocha era algo ainda mais raro: um homem profundamente leal. Eu e ele tratávamos-nos por “manos”. Não era uma palavra casual. Era a forma como viviamos a amizade: com lealdade, proximidade e uma ternura discreta que não precisava de gestos grandiosos. Quem teve o privilégio de o conhecer de perto sabe que a sua amizade era uma das coisas mais seguras da vida. Para todos tinha sempre um carinho muito especial como quem afirma uma fraternidade que dispensava formalidades. Dessa forma resumia bem a forma como vivia as relações humanas — com afecto, generosidade e uma fidelidade inabalável.
Num tempo em que tantas vezes se fala da desumanização da medicina, Ernesto Rocha lembrava-nos diariamente o que significa verdadeiramente
ser médico.
Deixa a mulher, três filhos, noras, netos e uma imensidão de amigos que hoje sentem a sua ausência e o choram. Mas deixa também algo que permanece: a obra clínica que construiu, a memória de um médico que colocou sempre os doentes acima de tudo e o exemplo de uma vida vivida com inteligência, humor e dignidade. Ficam também os colegas que aprenderam com ele e os muitos doentes cuja vida foi tocada pela sua dedicação.
Mas fica sobretudo um exemplo raro. O exemplo de um médico que nunca perdeu a humanidade.
De um líder que nunca procurou poder. De um homem culto, livre, bem-humorado e profundamente bom.
Ernesto Rocha deixou-nos cedo demais. Mas aqueles que tiveram a sorte
de caminhar ao seu lado sabem que a sua presença não desaparece verdadeiramente.
Porque há pessoas que continuam a viver na memória agradecida dos outros.
E o Ernesto era uma dessas pessoas.

Até um dia “MANO”.

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