Guilherme Jorge, OLeh, Zé Luís, João Henriques e Rui Paulo. Um balneário na empresa de flores.
“Pensam que somos floristas! Que fazemos arranjos. Não. Comercializamos flores no mercado grossista”. José Luís Campos, que aos 43 anos ainda joga no Atalaia do Campo, é o epicentro desta história. Quando o futebol deixou de ser a atividade profissional, começou a trabalhar na empresa Victor Santos – Flores e Acessórios, sedeada em Leiria e com um polo em Castelo Branco. Através de si, outros jogadores entraram no ramo: o guardião Oleh Prokopets, os avançados Rui Paulo (entretanto retirado) e João Henriques e, mais recentemente, o centrocampista Guilherme Jorge. Por lá passou também o treinador de futsal Telmo Roque.
Um balneário de flores. Com uma regra: “Todos sabem. Em primeiro lugar está o trabalho. Depois a bola. Foi nessa condição que vieram. Se alguma coisa tiver que ficar para trás é o futebol. Isto é que nos dá o dinheiro ao final do mês, não são os 150 ou 200 euros do futebol”, enfatiza Zé Luís. Em época alta no negócio das flores, por causa do Dia de Todos os Santos, não há mãos a medir. E as chuteiras ficam na prateleira, como aconteceu ainda no último domingo com Guilherme, que não pôde dar o seu contributo à equipa do Pedrógão.
Já jogaram do mesmo lado. E como adversários. Rui Paulo pendurou as botas há cinco anos. Às segundas-feiras, há sempre um tempinho para dissecar os jogos do fim-de-semana: “Perdemos ali quinze minutos a falar. Bem, quando jogamos contra o Zé (Luís), perdemos mais tempo, para ele se justificar”, ironiza Guilherme, que no entender de Rui Paulo é aquele que mais flores pode fazer em campo: “Tecnicamente tem muita qualidade. Este sim, pode fazer flores com a bola. Mas deixa-se ir abaixo. Fomos colegas no Alcains”. Quem também já fez flores nos retângulos foi Zé Luís, colega do peito do antigo internacional Jorge Andrade. “Já fiz! Agora dou uma ajuda”.
Transportam a experiência do balneário para o posto de trabalho. Formam uma equipa. Na verdadeira aceção da palavra. “Aqui puxa tudo para o mesmo lado. Ajudamo-nos mutuamente”. E ‘tricas’ quando jogam uns contra os outros?
“Quem mais azia é o Zé”, espicaça João Henriques, que esta época representa o renovado Proença-a-Nova. Zé Luís riposta: “Eles sabem bem como é! A primeira vez que me derem uma ‘porrada’, no dia a seguir chego aqui ao chefe e… guia de marcha!” (risos). Vira-se para o guardião ucraniano que há mais de vinte anos chegou ao nosso país: “Uma vez marquei-lhe um penálti. Disse-lhe que ia rematar para a direita e ele mandou-se para a esquerda. Fez bem! É por isso que ainda cá trabalha” (mais risos).
A conversa decorre nas instalações da empresa na zona industrial. Os vendedores (Zé Luís, Oleh e Rui Paulo) pegam às seis da manhã para as voltas. João Henriques e Guilherme estão no armazém e entram às nove. Ao fim do dia, tomam um duche e… aí vão eles. Para Pedrógão. Para Proença-a-Nova. Para Atalaia do Campo. Para Alcains, “para uma corridinha até Santa Apolónia”, no caso de Rui Paulo, que se cansou do futebol e das lesões. Depois de tantos quilómetros ao volante, o ucraniano natural de Brody ainda encontra aos 37 anos alento para ir treinar: “É um trabalho desgastante, mas fisicamente dá para conciliar. Já estamos habituados a este ritmo e o futebol acaba por aliviar um bocadinho o stress”. À escala distrital “leva-se bem”, mas Oleh teve que deixar o Alcains quando subiu aos nacionais, “por causa de treinos diários e viagens longas”.
Bonito é quando se juntam nos natais da empresa. “Antes da pandemia, a empresa levava-nos todos a Leiria, onde está sedeada. E fazíamos um joguinho de futsal. Era só cabazadas. Não era fácil para os colegas de lá”. Pudera.
Terminamos como começámos. “Quando digo a amigos que jogaram comigo noutras paragens que trabalho nas flores, julgam que estou a reinar. Chegam a mandar mensagens à minha esposa a perguntar se é verdade (risos) ”. “Vender flores? Não tem nada a ver com ele, dizem. Mas tem”, remata Zé Luís, que em trinta anos de futebol representou mais de vinte clubes.