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Gardunha: Património, povos e território

Paula Reis - 30/01/2025 - 9:00

Do tempo em que escrevia cartas para familiares emigrados em França, no envelope constava o código postal com a referência a S. Vicente da Beira.

Reminiscências do tempo em que pertencíamos ao concelho, extinto com a reforma de Mouzinho da Silveira.

Em ida à Vila, com paragem para um café, cruzei-me com um amigo do tempo de secundária e com um colega dos tempos do executivo da Freguesia.

Falámos de incêndios, de património, de realidades que nos unem.

Sobre água, contaram-me que o novo dono da «fábrica da água» tem mais quatro fábricas destas, dispersas pelo País. Veio ver esta e, para além de ficar com todos os trabalhadores, aumentou os salários.

Durante a conversa, os olhos fugiram-me para um cruzeiro «embutido» numa parede, com um símbolo esculpido na base, que me chamou a atenção. Não sei o que é, leiga que sou nestas matérias de investigação histórica. Mas sei que, a par com tudo o que está por investigar por aqui, deveria ser objeto de estudo.

A verdade é que, quem anda por este antigo Concelho, com vestígios evidentes a olho nu, de ocupação Romana, Visigótica, Árabe, da Ordem de Avis, depara-se com marcas históricas dispersas, por investigar e por mostrar que, a par com a natureza generosa destes sítios, seriam marca de um território que só ficaria a ganhar com a sistematização do seu estudo e mostra do que foi, e do que ainda é, de forma visitável, ancorada em investigação académica sistemática e dedicada.

É a Academia que demonstra que a cultura dos lugares atrai moradores e visitantes, que em nada tem a ver com avalanches turísticas, mas que dão forma de vida aos moradores, permitindo que continuem a ser habitados, que os terrenos sejam preservados e menos atreitos a incêndios ou usos nocivos ao Património Natural.

A diversidade de ocupações imemoriais e a grande riqueza da Gardunha sempre se baseou na largueza de vistas, na água pura e em quantidade e nos terrenos de cultivo generoso.

Mostrar estas riquezas, estudando-as, protegendo-as do esquecimento e enquadrando-as com a riqueza cultural e histórica dos territórios vizinhos é uma estratégia ganhadora de meios e de pessoas.

Na lenda da Batalha da Óles (que teria tido lugar ali no sítio onde começaram os dois grandes incêndios da Gardunha em 2017 e 2024), conta-se que os povos que

habitavam a Gardunha vieram ajudar os exércitos de D. Afonso Henriques, no combate aos mouros. E que estando esta «batalha descrita nas Memórias Paroquiais de S. Vicente da Beira, o vigário da época escreveu que os naturais observavam a batalha do alto do castelo e que os cristãos estavam a perder, porque os muçulmanos eram copiosos (muitos). Então desceram do castelo e ajudaram o exército de D. Afonso Henriques, saindo vitoriosos. Por isso, D. Afonso Henriques mandou fazer a romagem anual ao Castelo Velho.»

Engraçado também é perceber, na descrição da dita Batalha, que só com a ajuda daqueles que ali moravam é que se consegui travar a invasão dos Mouros e o quanto os exércitos de D. Afonso Henriques estavam apreensivos quanto à demora dessa ajuda.

Tenho para mim uma certeza: um território (seja ele um País, um Concelho ou uma Freguesia) só existe no somatório de todas as suas partes e beneficia com o melhor contributo de cada uma delas.

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