No Concelho do Sabugal existem muitas aldeias coladas à fronteira que ainda hoje guardam memórias do tempo do contrabando. Na infância, nos anos 80 vivi numa que se chama Batocas, sítio onde o meu pai construiu muitas casas grandes, forradas a marmorite e com portadas de alumínio cinzento, graças às remessas dos imigrantes que a Ditadura empurrara para França.
Nas Batocas, como na maior parte das aldeias do interior de Portugal, não faltava a mercearia, o café, a escola e o posto da GNR. Vivia-se, aparentemente, da agricultura, porque o lucro verdadeiro vinha do contrabando feito com a aldeia mais próxima, La Almedilla. O escudo valia mais que a peseta, a diversidade de produtos do lado de lá da fronteira era maior e o caminho de terra de um quilómetro era fácil de fazer a pé.
Ainda hoje me lembro do sabor dos doces, do cheiro a borracha das solas dos sapatos e da cantoria das bonecas que tinham um pequeno gira-discos nas costas, acionado por pressão de um botão que tinham no umbigo. Os militares da GNR viam passar os grupos de mulheres e crianças que iam às compras fingindo que nada se passava, até porque em suas casas entravam os mesmos produtos.
O contrabando lucrativo fazia-se durante a noite. Não sei o que traziam. Mas todos os homens fumavam «Celtas» e o meu pai dizia que as vacas, que passavam em manada debaixo da minha janela, eram vacas espanholas.
Há poucos anos fui de visita às Batocas. Encontrei uma aldeia com todas as ruas calcetadas, limpa, com uma praça de touros nova, mas uma aldeia vazia e sem qualquer espécie de estabelecimento aberto. O senhor que era um pequeno criador tem agora muitas cabeças de gado e vacaria própria. A de uso comunitário está em ruína.
O caminho para Espanha está alcatroado e chama-se Avenida Portugal. La Almedilla tem agora 153 habitantes, dos quais poucos vi. As persianas verdes dos «Almacenes» ainda existem, mas do comércio nem rasto. Também já não existe posto de Guardia Civil. O entendimento de que já não há nada para guardar é peninsular.
Em Espanha existe um Movimento chamado «La Espanha Vaciada», nós falamos de territórios de baixa densidade. Os espanhóis sempre foram mais diretos.
O problema de ambos? Falta de gente. Gastámos muito dinheiro da Europa em infraestruturas que estão subaproveitadas: polidesportivos, piscinas, praças de touros, campos de futebol. Cumprimos os antigos sonhos de obras das comunidades, mas perdemos capacidade de regenerar gerações que sejam suas utilizadoras.
Por seu lado, a União Europeia, através dos diversos Quadros Comunitários de que Portugal tem vindo a executar, realça um conceito que sempre fez parte das várias agendas políticas e económicas: o de Património Imaterial. Para mim, este não é mais do que o conjunto de saberes das gentes. Aquele que atravessou gerações. Os modos de produção, a música, o linguajar, o aproveitamento do que é autóctone. No fundo, as marcas do território.
O que nos foi pedido é que olhássemos para o que nos distingue. O que nós somos e sabemos enquanto comunidade. A mensagem é a de que a verdadeira alavancagem de um território só pode acontecer se ele firmar a sua base no conhecimento valorização e proteção do que é genuinamente seu. Para que tenhamos algo para trocar com os outros.
Este é um dos princípios básicos das trocas comerciais, elementar no que toca à Lei da Oferta e da Procura. A Lei que norteia a Europa dos nossos dias.
Paula Custódio Reis