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Estamos a criar novos pobres

Paula Custódio Reis - 31/10/2019 - 9:50

No início deste ano letivo foi notícia nos meios de comunicação nacionais o facto de existirem horários letivos por preencher, na zona da grande lisboa, o que levaria a que muitos alunos ainda não tivessem professor a algumas disciplinas.
Dizem as estruturas sindicais que representam os professores, que tal facto se deve aos valores de arrendamento praticados atualmente, que estão fora do alcance financeiro da nossa classe docente.
Esta é uma situação paradigmática daquilo que é a realidade salarial, da chamada classe média portuguesa.  Com efeito, podemos juntar à situação dos professores a maior parte daqueles que investiram numa formação superior para o desempenho de uma profissão.
Há quem diga que o desemprego ou as condições precárias do emprego de licenciados se devem ao facto de perdermos mobilidade. O que é um facto é que mesmo que tenham predisposição para essa mobilidade, não têm capacidade financeira para a levar a cabo.
A nova situação de pobreza está ligada à dificuldade que as famílias de classe média têm para garantir o pagamento de todas as despesas. Não é difícil constatar da impossibilidade de pagamento de despesas duplicadas referentes à existência de duas moradas, como é o caso de água, luz, gás, renda, alimentação e transportes.
Depois de fazer contas, a opção é trabalhar num perímetro geográfico que permita o regresso diário a casa, mesmo que isso implique abdicar de uma profissão para a qual se especializaram. Antes da introdução das portagens, a Beira Interior e o Alto Alentejo tinham movimentos pendulares diários de trabalhadores em muito maior número do que os existentes hoje em dia. A área geográfica aliada à disponibilidade financeira encolheu drasticamente. 
Hoje, a situação que vivemos é a de uma geração que aceita empregos com um tipo de contratação pouco estável, salários baixos, tarefas repetitivas ou emocionalmente extenuantes, frustrantes do ponto de vista de expetativas de carreira, em troca de um salário no fim do mês que significa que podem continuar a viver no sítio onde têm raízes.
Não têm o número de filhos que gostariam, nem capacidade financeira para a cultura e o lazer. Arrastam-se em situações de precariedade laboral por anos. 
Esta situação é perfeitamente contrastante com a noção de cidades, principalmente Capitais de Distrito, que tinham uma classe média empregada nos serviços que dava vida e florescimento económico a restaurantes, comércio no geral e estruturas culturais. Era esta classe média e média alta que constituía a massa crítica independente, que alavancava valores e conhecimento na sociedade. Nos grémios, clubes, associações, cafés e passeios públicos discutia-se a sociedade ela própria. Propagava-se cultura e História. Contribuía-se para a construção de pensamento.
Hoje, a maior concentração de pessoas nas cidades faz-se por imposição funcional. Vejam as saídas das escolas ou as visitas a espaços comerciais como os «ágoras» da atualidade, com a diferença grande de que ninguém aí discute a «coisa pública». As iniciativas destinadas a discutir o bem comum ou a cultura ficam desertas ou foram previamente ensaiadas para que nada de novo se faça.
A perda da capacidade financeira e o medo de perder o pouco que se tem, leva ao desaparecimento da capacidade crítica dos mais jovens, que normalmente são os que mais têm a dizer sobre a evolução da sociedade. 
Tenho para mim que a qualidade de vida dos cidadãos é garantia de uma sociedade mais equilibrada e menos tendenciosa. Mais justa e mais viva. Menos permeável ao pão e circo e mais interessada na melhoria das condições de vida para todos.
O que falta para lá chegarmos? A capacidade criativa para criar soluções que signifiquem empregos bem pagos. Serviços públicos à altura da resposta e do impulso a dar aos investidores. Representantes que representem. Munícipes que decidam e façam decidir e acontecer. 
Representantes eleitos que apoiem as estruturas representativas dos trabalhadores e o próprio Estado na discussão e aprovação de Contratos Coletivos de Trabalho adequados aos dias de hoje, quer em termos de remuneração, quer em termos de condições de trabalho. Tornar o recurso ao trabalho temporário residual, e não a regra para milhares de trabalhadores.
Governo nenhum decretará o que só a nós diz respeito. Discurso algum fará só por si alterar o dia-a-dia. Não basta a vontade, é preciso foco e persistência.
“Um rei não dá mostras de autoridade moral ao reinar sobre mendigos, mas sim quando reina sobre súbditos prósperos e felizes”. in Utopia. Thomas More

 

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