Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Greve estudantil pelo clima

Costa Alves - 06/06/2019 - 10:26

A greve estudantil pelo clima foi uma surpresa. Nos anos de 1960, éramos nós, estudantes universitários, que procurávamos os miúdos do secundário com as preocupações por outra escola e outro país. Agora é o contrário. São os estudantes do ensino secundário a denunciar o futuro que lhes destinaram. Hoje, e quero crer que apenas por enquanto, os estudantes do ensino superior fazem o impossível para não comparecer. Julgar-se-ão no melhor dos mundos?

A faísca, que Greta Thunberg produziu, propagou-se e iluminou os mais jovens da nossa casa comum - aqueles que ainda não tiveram vivências que obriguem a pensar sobre o seu próprio futuro. Foram eles que saltaram e fizeram multiplicar faíscas por todo o mundo. Pensava que chegariam rapidamente às faculdades onde se encontram aqueles cujo futuro imediato está transviado, escamoteado, alienado. Não chegaram. Os colegas do ensino superior continuam renitentes e sem manifestações de esperança audíveis. Espero que algum despertador os faça mudar de vida.

Castelo Branco não esteve no primeiro andamento desta sinfonia que começou (mundialmente) a ser tocada e multiplicada no dia 15 de março. Mas, em 24 de maio, a cidade teve uma demonstração do que vai na alma dos adolescentes que a tocaram. Passo a rememorar o que os cartazes disseram no seu desfile até à zona fronteira da Câmara Municipal que se tornou um excelente palco a que o grupo de teatro Váatão emprestou som, movimento e cor. Não um ritual que se cumpre por dever, mas festa com palavras de preocupação.

Também aqui começaram com uma declaração: “Faltamos às aulas porque nos falta o futuro”. E uma justificação: “Se os adultos não agem, agimos nós”. Isto, porque a agudização da crise climática originou a constatação de que “Estão a ficar sem desculpas e nós sem tempo”. Passaram-se quase 30 anos sem verdadeira ação e quem deve não dá sinais de querer agir pelo bem comum. “Não temos outra casa”, repetiam.

E eis que passa um conselho que traz ressonâncias dos anos de 1960: “Make love, not CO2”. O que vivi nesse tempo ainda fervilha neste tempo de hoje, muito mudado, mas igualmente desafiador de valores cidadãos. Valores de idealismo e de mudança.

Anoto as falas de outros cartazes: “Quero nadar com os peixes e não com os plásticos”; “Ó mar salgado, quanto do teu sal são plásticos de Portugal”; “Se o planeta fosse um banco, já estava salvo”; “Acordai”; “Viver em Marte? Não, obrigado!”; “A terra está com febre”; “Quando é que sobreviver deixou de ser prioridade?”

Retenho o mesmo espírito que perpassa pelas demonstrações que ocupam as cidades do nosso país: humor, irreverência, imaginação. Tomaram os encaixados e os resignados esta liberdade livre da imaginação, da transparência e da sinceridade!

Sei que, perante a exigência de declaração de “Emergência climática já!”, o ministro do Ambiente diz que não a faz, com a justificação de que seria apenas simbólica. Pela parte profissional que me tocou e continua a tocar, os sinos dobram desde os anos de 1990. Os poderes político-económicos agiram e não agiram para que chegássemos a este estado.

Guardo para o fim uma referência aos mais pequenos - os que aprendem no jardim-escola conhecimentos e práticas de respeito pelo ambiente que aconselham a pais e avós. Estiveram no cortejo. Não levaram cartazes, mas vozes afinadas pelas palavras que queriam que ouvíssemos. “O lixo é feio”; “A poluição é má”. Os cristais das suas vozes ainda tilintam na minha memória desta festa tão tocante.

[email protected]

COMENTÁRIOS