O fim-de-semana passado ficou novamente marcado por uma vaga de fogos que colocou em causa a segurança e protecção que o Estado tem obrigação de prestar aos seus cidadãos. Cidades como Braga, Tondela e Guarda ficaram cercadas pelas chamas para terror das populações e empresas que viram anos de trabalho reduzirem-se a cinza.
Esta foi a segunda vez em apenas quatro meses que o país lamenta a perda de vidas humanas por uma deficiente coordenação de meios no combate aos incêndios, tendo os distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco sido os mais fustigados por esta inoperacionalidade.
No nosso distrito, os concelhos da Sertã, de Vila Velha de Ródão, do Fundão, da Covilhã, de Oleiros e de Vila de Rei foram os mais afectados pela sua maior densidade florestal e pelo terreno acidentado que dificultou a operação dos bombeiros.
A tragédia de Pedrógão Grande teria sido, lamentavelmente, suficiente para acordar um país esquecido do seu interior, mas, infelizmente, no domingo passado testemunhámos, incrédulos, centenas de fogos entre o Tejo e o Mondego e a norte do rio Douro.
Esta é, sem dúvida a oportunidade de o governo e a sociedade civil debaterem soluções para evitar novas catástrofes. É fundamental confortar as vítimas e reparar os estragos, mas não devemos permitir que um novo terror deste género de abata sobre o país.
Naturalmente que o nível de humidade e a seca persistente muito contribuíram para fazer deste ano um dos piores anos no que refere à área ardida, fazendo-nos lembrar o horror de 2003 e 2005, mas a falta de investimento em meios de combate, na formação dos bombeiros e nos meios de comunicação apropriados agudizaram um inferno que se avizinhava.
A reforma da floresta não se fará em meia dúzia de anos, mas a prevenção, o reforço dos postos de vigia, a melhoria dos meios de comunicação, a limpeza das florestas e matas e o reforço do número de efectivos com formação para combate a incêndios, são soluções que devem ser imediatamente adotadas, como algumas delas já foram anunciadas pelo atual governo.
Este não é um tempo de censura, porque acredito seriamente que todos estamos em choque com o que ocorreu nos últimos quatro meses. Este é um tempo de ajudar os que tudo perderam, reforçar definitivamente a prevenção, dotar os responsáveis pelo combate aos incêndios dos meios de que necessitam e de planear para as próximas décadas a reflorestação do território.
É por isto que os responsáveis do Ambiente, da Administração Interna e da Agricultura e Silvicultura devem delinear uma estratégia comum, ouvindo a sociedade civil e as sugestões dos partidos da oposição.
Compreendo a indignação de muitos pelo deficiente combate aos fogos devido à redução substancial de meios e às contínuas falhas no sistema de comunicação que há muito se revela totalmente inoperante e inadequado, mas que a indignação nos ajude a promover algo construtivo que impeça que anos como este voltem a suceder.
Em suma, este não é um tempo de divisões partidárias inúteis, nem de acusações estéreis, mas de identificação das melhores soluções para que não tenhamos que lamentar a médio-prazo uma nova catástrofe como esta que a todos nos envergonha pela total ausência de um Estado que há décadas negligencia o interior do país.