Os meus bisavós construíram a sua casa, assim como os seus filhos e netos. Eu fui arrendatária de um quarto enquanto estudava, com as rendas a serem pagas em dinheiro vivo. Na aquisição de casa, no final dos anos 90, o Estado concedeu-me um crédito bonificado, que ajudou a comprar casa num mercado inflacionado.
A ideia de ter casa própria é algo de muito valorizado pelo povo português, tendo em conta de que era tudo o que tiveram durante muitas décadas. A seguir à casa, um bocado de terra, com uns pés de oliveira, foi o destino das primeiras poupanças da emigração.
Assistimos depois à concentração da população junto ao mar, principalmente em grandes polos urbanos. Construímos estradas, pontes, metropolitanos. Vimos os arcos urbanos aumentarem e as deslocações diárias crescerem muito em distâncias e tempo.
Temos um País cujo planeamento territorial nos poderia fazer corar de vergonha. Destruímos espaços públicos e vivências de Bairro, para dar lugar a marcas reconhecidas internacionalmente e a «spots instagramáveis».
Na habitação temos um caldo de problemas, do qual só conseguiremos sair com planeamento em lugar da demagogia, com pensamento voltado para soluções e paz social, em lugar de lucro imediato e obediência cega a financiadores.
Ter um imóvel arrendado que complemente salários é uma ideia que dificilmente desagradará a alguém. O problema surge quando essa atividade não é devidamente regulamentada e tributada, quando o valor das rendas ultrapassa em muito o esforço comportável para quem vive do seu salário, ou as deslocações diárias para o trabalho implicam tanto tempo e esforço que a dignidade já não existe na vida de quem as tem de fazer.
Dizem os números que o problema não é do volume de habitações existentes no País. Que tem a ver com concentração de propriedade, com não distinção entre primeira casa de habitação (efetivamente usada para tal) ou casa para investimento. Dizem também os números que os rendimentos disponíveis dos trabalhadores estão a perder terreno e não chegam já para as despesas de habitação, alimentação, saúde e educação, ou seja, que ser trabalhador não nos livra de cair na pobreza.
No mercado laboral estamos a meio de uma alteração de paradigma, uma verdadeira Revolução Industrial XXI, que levará à destruição efetiva de postos de trabalho, devido à redução do número de pessoas necessárias para executar uma determinada função. Se o trabalho não chega para as despesas, imagine-se a vida sem ele.
No panorama internacional, a globalização estourou-nos na cara quando países e circuitos habituais de matérias e pessoas foram tomados em nome da concentração de poder por algumas nações. A crise climática está a acrescentar fenómenos climáticos adversos, em que morrem pessoas e se destrói património natural e construído.
Parece que a crise que vivemos em 2008 e anos seguintes, baseada num colapso do setor imobiliário, nos regates públicos a bancos privados, e em contas públicas insustentáveis, se nos varreu da memória, ao ponto de os indicadores atuais nos mostrarem que estamos a repetir a receita.
Hoje, a geração dos meus filhos sofre por falta de futuro. E a culpa, por ação ou por omissão, é das gerações que lhes deram colo.
A nossa vergonha? Esboroa-se no comentário pobre acerca daqueles que estão a tentar fazer alguma coisa.