Nos meses de junho, julho de 2022, dizem as estatísticas que morreram em Portugal mais 4.430 pessoas do que nos meses homólogos de 2016 e 2019, isto é, mais 30%. Foi o país da União Europeia com maior taxa de mortalidade. Morreram mais 36 pessoas por dia do que a média, mais 11% do que os registados antes do coronavírus e alguns bebés. O facto é atribuído às ondas de calor que afetaram o país. Penso, contudo, que a crise que se vive no Serviço Nacional de Saúde também não é alheia a este aumento de mortalidade.
Por detrás desta crise está a falta de profissionais de saúde, mas também estão questões de dinheiro que provocaram essa falta. No dia 16 de julho, algumas centenas de médicos manifestaram-se frente ao Ministério da Saúde exigindo a revogação da norma do Orçamento de Estado de 2022 que prevê a admissão de médicos não especializados para fazer o serviço de Médicos de Família, os quais poderão auferir ordenados superiores aos colegas mais antigos, e além disso, especializados. Qualquer médico não especialista que entre no “plantel” de cada Centro de Saúde, será olhado com desconfiança pelos pares. Abandalhar os critérios de admissão talvez não seja a melhor solução. Há que valorizar os que lá estão para não saírem, como já aconteceu com 1700 especialistas da medicina familiar.
Parece-me que o problema pode ser de dinheiro, mas não só: há demasiados médicos sempre prontos para falarem na comunicação social, em vez de estarem nos seus postos de trabalho. Há dias ouvi alguém responsável a dizer que deveria haver um enfermeiro para cada 2 doentes; há demasiada gente a pedir escusa de responsabilidades. Há dias as redes sociais, valem o que valem, diziam que em 2005 nasceram em Portugal 109.399 bebés e havia 1418 obstetras e 1434 pediatras; em 2021 nasceram apenas 78.582 bebés, mas havia 1861 obstetras e 2.297 pediatras. A ser verdade, ou em 2005 se trabalhava muito, ou em 2021 se trabalhava pouco. O pior é que em 2021 morreram mais bebés do que em 2005…