Nos meus 73 anos, recordo as feiras de gado da minha infância, sobretudo a de 16 de agosto em Sarzedas (feira de S. Jacinto), onde os “charnecos” negociavam os seus bois, ou a feira franca de Castelo Branco, ali para os lados da Horta D’Alva. Os animais eram os heróis, bem escovados e arreados, guiados pelos filhos(as) dos donos à procura de casamento, com o fato de gala, e seguidos pelos seus proprietários vaidosos com os animais. Vendedores e compradores esgrimiam os seus argumentos para fazerem o negócio, e depois de muitos regateios, ele era selado com uma mãozada, e a palavra dada era palavra sagrada. Ia-se à taberna próxima concluir o negócio, com um copo, e ali o comprador batia as notas que o vendedor guardava cuidadosamente, sem que às vezes deixasse escapar uma lágrima de saudade pelo animal que via ir embora. Eram assim as feiras de gado, a que Augusto Santos Silva, comparou a concertação social, realizada entre os sindicatos, patronato e Vieira da Silva, ministro do trabalho, e concertação social. Só há a esperança de que aqui o negócio era feito só entre duas partes, e aqui foi feito com várias partes, e uma não o assinou. Como não o assinou agora continua a reivindicar e a dificultar a vida da nossa geringonça, com as greves e manifestações que vai promovendo e que à medida que vão chegando as eleições, também elas se vão agravando.
Hoje em Portugal já não se regateiam os negócios, porque tudo tem de estar com preço marcado. O pior são os negócios escuros e sujos, feitos às escondidas do público, que fazem desaparecer milhões, sem que depois ninguém se lembre de como foi. A justiça bem investiga, mas só encontra gente de consciência tranquila, que perdeu a memória e não sabe dar restrições do rasto do dinheiro que desapareceu misteriosamente dos bancos, e ninguém sabe para onde foi. Tenho saudade dos negociantes que regateavam, mas sabiam sempre descrever o negócio que fizeram com todos os pormenores e custos. Apesar de não saberem ler, eram mais sérios que os de hoje.