Quando em 1967 fui nomeado professor do Liceu Nacional de Castelo Branco, foi-me exigida a apresentação do Registo Criminal, provando que tinha o cadastro limpo, para que a nomeação fosse aceite. Ao entregá-lo, o sr. reitor Dr. Catanas Diogo fez questão de explicar que em Portugal só gente honesta e séria podia estar na função pública. Jocosamente, o Dr. Parro, que estava presente acrescentou: “só os candidatos a ministros estão isentos desta apresentação, porque esses basta-lhes ser do agrado de Salazar”. Pelos vistos atualmente são os mais escrutinados não só pelos partidos de oposição, mas também pelos jornalistas. Agora percebo o porquê de o Dr. Salazar não querer partidos de oposição na Assembleia Nacional, mas só União Nacional, e de recusar a imprensa livre, obrigando-a à censura do lápis azul.
Em 9 meses já lá vão 12 que tiveram de se demitir pela pressão da imprensa, dos partidos da oposição ao governo e até do sr. Presidente da República. E já não se exige apenas que tenham o cadastro limpo, mas também que cumpram a ética republicana. A secretária de Estado da Agricultura aguentou-se no cargo apenas 26 horas. O ataque a ministros e secretários de Estado continua implacável e o 1.º ministro por muito que se esforce não consegue pará-lo. Por este andar qualquer dia não é possível nomear ninguém para governante.
Das duas uma, ou somos um país de corruptos e ninguém se salva, ou somos de tal modo exigentes que só queremos “santos” na governação, mas esses talvez recusem o cargo…
Diz o nº. 229 da Laudato Si: “é necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros… que vale a pena ser bons e honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, á bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu”.
Agostinho Dias