A abertura do ano judicial foi solene, morosa e cheia de discursos de grandes personalidades do país. O bastonário da ordem dos advogados disse que há em Portugal uma justiça para pobres e outros para ricos. Os pobres sem capacidade económica para contratar grandes advogados, contentam-se com o oficioso que foi nomeado e têm de aceitar a primeira sentença que lhes foi lida. Os ricos, com dinheiro para pagar a grandes advogados, esgrimem todos os argumentos na produção de prova, usam todos os expedientes para criar incidentes processuais, fazem todos os recursos à procura de uma sentença que lhes seja favorável, usam todos os expedientes dilatatórios para que o crime prescreva, se a sentença não for favorável. Se o cliente fôr condenado, pouco importa se praticou o crime, ou não praticou; o que importa é se o tribunal foi capaz de o provar, ou não provar cabalmente, isto, apesar de em tribunal todos jurarem dizer só a verdade e toda a verdade.
É evidente que o que fica dito atrás torna os julgamentos morosos, com processos que nunca mais acabam, e daí o sr. Presidente da República ter falado no tempo da justiça. É preciso que as sentenças sejam dadas quando as pessoas ainda estão ativas, capazes de assumir os seus atos e de reparar o que houver a reparar. Os mega processos não permitem esta celeridade, pois à partida os milhares de páginas e de documentos não são fáceis de analisar, contextualizar e descobrir o que é essencial para se poder dar a sentença. Os muitos incidentes de percurso complicam ainda mais essa celeridade. Dificilmente veremos esses processos resolvidos em tempo considerado aceitável.
Uma democracia onde falhe a justiça está sujeita a graves riscos que podem cavar a sua própria ruína.
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