Passado quatro anos sobre a data de entrega das listas do Partido Socialista às eleições autárquicas, em Castelo Branco, compreendo agora o sentido das palavras de Luís Correia, cabeça de lista à Câmara Municipal, quando na noite de 29 de julho de 2017, me convidara para integrar a lista de vereadores.
Naquele dia, a tarde estivera de abrasar, como é costume por aqui, embora pelo fim da tarde com a passagem ligeira do vento a noite ficara mais calma. Correia convidara-me para uma conversa, a sós, em sua casa. O motivo era previsível.
A conversa fora morna e já depois de ter aceitado o convite, eis que fora surpreendido com a integração na lista, em segundo lugar, de um elemento exterior ao executivo de então substituindo assim o vice-presidente que já antes manifestara o desejo de não continuar.
Foi-lhe sugerido, por mim, que deveria “puxar” todos os elementos do executivo para a frente, o que todos compreenderiam, e que seria um sinal claro de reconhecimento do mérito e confiança nos elementos da equipa que agora estava em fim de mandato. E este não correra assim tão mal, já que as expectativas eram altas e substituir Joaquim Morão não era “pera doce”.
Apesar da minha insistência, Luís Correia manifestava-se inamovível.
Sugerira-lhe que deveria designar, como vice-presidente, a Maria José já que, pela minha proposta, seria a número dois da lista, o que não merecera a sua concordância. Apesar da minha insistência, Luís Correia continuara a manifestar a sua discordância.
Sugerira-lhe, então, João Carvalhinho para vice-presidente, tendo-me de imediato atalhado a conversa: “- esse não, tenho que pensar no meu futuro.”
Ficara surpreendido e apesar da conversa se arrastar por mais algum tempo, não fora capaz de compreender, naquele momento, o alcance daquela expressão.
Incapaz de o demover da sua decisão e sendo eu seu vereador, tendo aceitado o seu convite para integrar a lista e sendo eu membro da comissão política, órgão estatutário com competência para aprovar as listas às autarquias, Luís Correia continuara a omitir o nome do seu convidado para segundo lugar. Apesar de Insistir uma e outra vez, Luís Correia manifestar-se irredutível. Na segunda-feira seguinte, dia 1 de agosto, comunicara, por escrito, a Luís Correia que não o acompanharia na sua candidatura.
Quebrara-se, a partir daquele momento, a relação de confiança que ainda mantinha nele.
Sim, porque na fase final do mandato que estava prestes a terminar, a relação de confiança começara a deteriorar-se na sequência de algumas circunstâncias entre as quais a sua indiferença relativamente à necessidade de se promoverem medidas de natureza organizacional, em determinados serviços, com vista a uma maior eficiência e transparência e ainda, entre outras, à sua imprudência na tomada de algumas decisões.
À medida que os anos do atual mandato foram passando, com todos os incidentes à volta de Luís Correia, e que puseram Castelo Branco, pelas piores razões, na “boca do mundo” e que tiveram como desfecho a perda de mandato, fica hoje mais claro o significado daquela afirmação que Luís me dera naquela noite de julho de 2017.
Talvez nessa altura, por temer um futuro processo judicial, que posteriormente lhe fora instaurado, e já admitisse a eventual perda de mandato, conforme veio a acontecer.
Claro que nestas circunstâncias, Luís Correia, que outra ambição não tem senão a do “poder pelo poder”, precisaria de alguém que o substituísse e continuasse a decidir, de forma acrítica, os destinos do município de acordo com a sua vontade, de forma a alimentar a sua estratégia de afirmação pessoal, norteada pelo princípio do culto da personalidade.
Quem conhece os vereadores que atrás referi e propusera como vice-presidente, como eu conheço, não se prestaria a esse exercício deprimente de ser, no município, a voz do presidente que perdera o mandato. Sim, porque aqueles, que conheço de há muitos anos, são ideológica, ética e moralmente irrepreensíveis, portanto pessoas de fortes convicções.
Só assim se compreende que o ainda executivo, cujos vereadores, à exceção dos do PSD, que foram eleitos pelo partido socialista e agora integram e apoiam o movimento SEMPRE, de Luís Correia, tenham tomado decisões, já depois da apresentação das listas, que são imprudentes, incompreensíveis e questionáveis.
Na última sessão de câmara, dia 6 de agosto, os vereadores que integram a lista de Luís Correia, juntamente com o presidente da câmara, atribuíram apoios financeiros na importância total de 1.007.723,21 (um milhão, sete mil, setecentos e vinte e três euros e vinte um cêntimos), em que grande parte foi para associações cujos seus dirigentes integram as listas do candidato independente, Luís Correia, à câmara municipal, a assembleia municipal e às assembleias de freguesia.
Por respeito às coletividades e aos seus dirigentes, dispenso-me de aqui as e os mencionar.
Independentemente da necessidade de quem recebeu os apoios, é incompreensível tal decisão, quer pelo momento quer pela ininteligibilidade dos critérios, já que cada munícipe tem o direito de pensar que o executivo usa os recursos do município para condicionar o voto que é um direito e um dever consciente de cada cidadão.
A título de exemplo, não é compreensível que uma determinada associação receba uma determinada importância para a aquisição de uma carrinha, só pelo facto de o seu responsável integrar uma das listas do movimento SEMPRE, quando todas as outras existentes no concelho, do mesmo tipo e com os mesmos fins - e são várias – não a recebam também.
Assim não, senhor presidente e senhores vereadores.