Na edição de “Reconquista” de 23 de janeiro último sob o título “Investimento em Oleiros” foram apresentadas declarações do Presidente da Câmara do Concelho, revelando a intenção de transformar quatro escolas primárias em casas de habitação.
Inicialmente nem queria acreditar na veracidade das declarações, mas ilustradas estas com uma foto da assinatura do protocolo com o IHRU, as dúvidas desapareceram.
Verifiquei depois que, de entre as quatro escolas objeto de intervenção figura a escola primária de Isna. E aqui, de um ar incrédulo passei a sentir indignação.
É certo que muitas escolas primárias em todo o país deixaram de ter utilidade para a finalidade de ensino para que foram criadas por falta de população escolar. E, por isso, muitas há que são utilizadas para outras finalidades, mas em geral para finalidades de caráter social e não privado. É aqui que bate a minha inteira discordância e certamente de muitas outras pessoas com as intenções anunciadas. Referindo-me concretamente à escola de Isna, é bom recordar alguns pontos do passado:
A antiga escola, construída em 1906, desempenhou a sua função até 1962 e tendo deixado de ter condições adequadas ficou durante vários anos ao abandono. Compreende-se, assim, que tenha sido reabilitada e que se tenha tomado a decisão correta de a transformar em sede da Junta de Freguesia, exatamente respondendo a uma necessidade de caráter social.
A atual escola primária, inaugurada em 1962, desde há muitos anos deixou de funcionar como escola, deixando de ter a manutenção que deveria ter tido.
Há alguns anos, houve uma reunião no ISCA em que se colocou a hipótese de ali passar a funcionar um Centro de Dia. Por razões que desconheço a ideia nunca avançou, mas em qualquer caso, compreende-se que tal hipótese iria ao encontro de uma necessidade social e por isso merecia a concordância da população.
A escola primária é um edifício único em termos de referência da comunidade isnense.
Recordo-me que entrei para a escola em outubro de 1962, frequentando ainda até ao Natal a antiga escola primária. No segundo período, os trinta e quatro alunos entraram pela primeira vez, cheios de curiosidade e de natural expectativa na escola nova. Recordo-me ainda que a Senhora Professora Ilda Gonçalves fez questão de indicar a primeira classe para inaugurar o quadro preto da nova escola. Depois de ela própria ter escrito no topo do quadro a respetiva data de 3 de janeiro de 1963, chamou os alunos ao quadro a fim de resolverem já algumas operações simples de somar e de subtrair.
Por ali passaram quase todos os isnenses nascidos depois de 1950. Ali se aprenderam as primeiras letras do alfabeto, ali se aprendeu, como se dizia, a ler, a escrever e a contar. Mas não só. Ali se assimilaram os conhecimentos de caráter geral, que serviriam de base às exigências elementares dos novos tempos ou à continuação dos estudos. Foi ali também que se incutiram algumas regras de boa educação e de higiene. Daquele edifício se guardam muitas memórias, como prolongamento de vivências pessoais e coletivas que permanecem mais ou menos vivas em cada um.
Por todas estas razões, a escola primária é um edifício que serve de referência cultural, que não deve ser apagado e reduzido a uso privado.
Não se trata de mero saudosismo, mas sim de um posicionamento que radica no apreço pelos símbolos de natureza cultural. E a escola primária é um dos mais significativos. Temos poucos símbolos na Freguesia e mesmo assim apagamo-los. Como é possível?
De resto, que eu tenha conhecimento nem sequer se ouviu a população sobre este assunto. Uma alteração deste género merecia uma discussão pública devidamente anunciada e participada como acontece nas obras públicas. Há valores culturais e sociais que importa preservar.
Perguntarão algumas pessoas: mas então, o que se deve fazer ao edifício? Deixar como está?
Não. Avanço uma ideia que particularmente já tenho partilhado: a escola primária poderia transformar-se facilmente num pequeno museu, repositório de objetos tradicionais já sem uso ou mesmo de algumas alfaias agrícolas que ainda por lá se encontram, muitas vezes a estorvar e a ocupar espaço. Certamente que algumas pessoas contribuiriam nessa iniciativa.
Compreendo que o nosso Presidente esteja preocupado com a habitação. É preciso que haja uma resposta habitacional para quem queira fixar-se no nosso concelho, mas esta solução é incompreensível. Deve ser evitada, se ainda é possível.
Em qualquer caso, fica registada esta posição, que, decerto não é apenas minha, mas de muitas outras pessoas. Que não se diga, agora ou na posteridade, que nenhum isnense manifestou a sua oposição a esta infeliz proposta. Peço aos nossos autarcas que revejam esta decisão, a bem da Freguesia de Isna.
Já que me dispus a intervir sobre este assunto, aproveito a embalagem para sugerir que outros edifícios ou estruturas sejam devidamente mantidas pela Junta de Freguesia e Câmara Municipal:
- O Lavadouro que, incompreensivelmente, se encontra em clara degradação. É urgente que se proceda à sua reabilitação, sem uso e abuso de privados. É, na sua simplicidade, um símbolo daquilo que na altura foi considerado progresso em termos de higiene na lavagem da roupa. Deveria ser devidamente arranjado e manter-se limpo à vista de todos;
- Alguns moinhos de água, que foram abandonados por não se justificar mais o seu uso, mereceriam ser recuperados e permanecerem como um testemunho de atividades outrora essenciais à vida e economia local.
- As fontes, que embora a maior parte já não esteja em funcionamento, deveriam ser limpas regularmente, conferindo um aspeto agradável a uma aldeia que, sendo de grande beleza, precisa do cuidado de todos.
Espero que este simples apontamento, contribua para uma mudança de rumo em algumas decisões erradas ou pelo menos que evite
outras futuras.