Os juncalenses ainda hoje dizem “ Onde há juncos há água”.
Os juncalenses ainda hoje dizem “ Onde há juncos há água”.
Do latim “juncus” é uma planta com hastes direitas e flexíveis que nasce na água e nos sítios húmidos. Na primavera as muitas nascentes propiciavam abundantes ervagens para a pastorícia numa granja pertencente à antiga Comenda de Alcains cujos pastores teriam fundado este lugar com nome de Monte do Juncal.
As primeiras habitações situam-se no sopé da elevação, designada de Lomba e com os anos expandiu-se pela encosta sobranceira ao poente. É no coração da aldeia que nascem os olheiros ou nascentes de água que no inverno aumentam o caudal do ribeiro de Vale dos Juncos até à ribeira do Tripeiro. Sabe-se que nas entranhas da Lomba existe um lençol freático que alimenta os olhos de água que existem em redor da aldeia.
A população designou-as de fontes quando necessitavam do precioso líquido em que as mulheres acartavam à cabeça, muitas vezes, por caminhos sinuosos. Nas proximidades da Palhota foi captada a água que corre no Chafariz Velho, construído em 1937. A água aproximou-se dos lares, reduzindo o esforço e a distância no transporte da água, como também o lavadouro público com as águas sobrantes.
Ir à fonte muitas vezes era ponto de encontro para os namorados ou falar da vida enquanto esperavam a sua vez de encher as “cântaras” de lata ou cântaros de barro. Ao lado reproduz-se a pintura a óleo intitulada “ Memórias com estórias”, recriando as pessoas no Chafariz Velho. Neste local existiu a fonte Fundeira com a nascente numa mina próxima.
Não muito longe dali, no centro da aldeia, existe a fonte Cimeira, património da freguesia e data de 1901, encontrando-se preservada cuja água corre para o lavadouro. Segundo pessoas mais idosas, a leste da aldeia, encontrava-se a fonte do Guino edificada com blocos de granito nas proximidades de uma villa romana.
Mais próximo da localidade encontra-se o poço com o mesmo nome e durante muitas décadas abasteceu a população cimeira, sendo mais tarde na década de sessenta canalizada para os vários chafarizes. Com o fornecimento da água ao domicílio e à abertura de vários furos artesianos os fontanários foram desativados.
A uma distância considerável, a norte da aldeia, encontra-se a fonte da Palhota a norte, que é património da freguesia, construída em blocos de granito, outrora com lájeas de xisto. O nome está relacionado com uma construção que serviu de estalagem para descanso de viandantes e troca dos cavalos-correio. Por ali passava, em 1804, a estrada militar entre Abrantes e Belmonte.
Ainda mais a norte existe a fonte do “Tchurço” construída também com blocos de granito numa propriedade privada. Nas proximidades existia também a fonte das Rabaças referida na delimitação da Herdade da Cardosa, em 1214.
Quando as chuvas eram mais abundantes, na fonte das Ferrenhas, a água brotava em bicas pelas fendas rochosas e alimentava uma presa para rega. Na Delimitação e Demarcação do Monte do Juncal aparece como referência a fonte de Ferro, mas devido à abertura de poços, foi anulada. Regista-se ainda que nas proximidades foram encontradas “tegulae” romanas.
No sítio da Fonte do Sapo, na primavera, brota do fundo de uma pequena cova um olheiro onde as pessoas se ajoelhavam de bruços para aproximarem os lábios da água e saciarem a sede. A sul da aldeia existiu a fonte da Horta dos Escalos, onde nos anos sessenta, foi aberta uma mina para abastecer os residentes do Casal.
No início do século passado a água aflorava à superfície em muitos terrenos, mas para satisfazer as necessidades agrícolas abriram-se muitos poços. A sua abertura dependia muitas vezes da presença de um vedor para localização da veia de água. Este, com uma vara verde curvada e presa nas mãos, concentrava-se e caminhava lentamente até a vara torcer, indicando a passagem de água à profundidade.
Para rega de algumas hortas usavam os ogadouros nos “pocitos” , mas nos poços mais fundos usavam-se as noras, as “burras” ou picotas em que o “murão” de granito suportava o varal do engenho. Os antigos diziam que quando a serra da Estrela mantinha a neve durante a primavera as nascentes dos poços ficavam mais reforçadas no verão.
Quando escasseava a “água de meias” era racionada entre os donos do mesmo poço, combinando a “água aos dias”.
No final do verão quando alguns poços quase secavam diziam “em setembro secam fontes ou caiem pontes”. Conclui-se que a existência de muitas fontes fizeram prosperar a vida agrícola e sócio económica das gentes do Juncal.
As fontes que deram de beber, apesar de esquecidas e parecerem insignificantes, o seu registo e divulgação renasce e valoriza uma parte do património histórico da localidade. Presentemente nas terras abandonadas ainda há fontes e poços que vertem água, parecendo lágrimas de um passado de memórias.