Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Liberdade, trabalho e futuro

Luís Filipe Santos* - 30/04/2026 - 9:00

Nesta semana que medeia as comemorações do 25 de abril e do 1 de maio, deixem-me partilhar uma reflexão que importa realizar.

Falar de liberdade é falar de uma herança exigente. Não é apenas recordar uma data, repetir símbolos ou cumprir rituais cívicos que se estão a cristalizar. A liberdade que Abril nos devolveu é, antes de tudo, uma responsabilidade permanente: a responsabilidade de garantir que cada geração recebe mais possibilidades do que limitações, mais direitos do que medos, mais futuro do que resignação.

O 25 de Abril não pode ser visto apenas como um ponto luminoso da nossa memória coletiva. Foi, e continua a ser, uma promessa. Uma promessa de dignidade, de participação, de justiça social, de igualdade de oportunidades e de respeito pela pessoa humana. Mas nenhuma promessa histórica se mantém viva se não for renovada pelas respostas que damos aos problemas do presente. A liberdade que se conquistou nas ruas, nas instituições e na consciência democrática do país tem hoje de ser defendida também no emprego, na habitação, na escola, no acesso à cultura, na coesão territorial e na capacidade de cada jovem poder construir a sua vida sem ser empurrado para fora da sua terra, do seu país ou das suas aspirações.

É por isso que a ligação entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio é tão profunda. A liberdade política e a dignidade do trabalho não são realidades separadas.

Uma democracia que garante o voto, mas permite que o trabalho deixe de garantir autonomia, segurança e projeto de vida, fica incompleta. Do mesmo modo, uma sociedade que celebra os direitos laborais, mas esquece a liberdade, a pluralidade e a participação democrática, perde o sentido mais profundo desses direitos.

O Dia do Trabalhador deve, por isso, ser entendido como uma continuação natural de Abril. Porque a democracia não se mede apenas pela existência de eleições livres, mas também pela forma como organiza a vida concreta das pessoas. Mede-se pela capacidade de proteger quem trabalha, de valorizar quem cria riqueza, de

dar oportunidades aos jovens, de reconhecer novas profissões e acompanhar a transformação tecnológica.

Portugal precisa de uma legislação laboral mais virada para o futuro. Não uma legislação presa a nostalgias. Precisamos de um quadro laboral que compreenda o tempo em que vivemos: o impacto da inteligência artificial, a digitalização dos serviços, a mobilidade profissional, a transição energética, a conciliação entre vida pessoal e profissional, mas também a necessidade de proteger os jovens perante formas de precariedade que adiam salários dignos, independência, família, participação cívica e enraizamento territorial.

Para muitos jovens, a liberdade deixou de ser uma questão abstrata. A liberdade é poder escolher ficar, trabalhar no Interior sem sentir que isso significa abdicar de uma carreira. É não ser obrigado a trocar a terra onde nasceu por uma oportunidade que só existe longe.

É neste ponto que a liberdade se cruza com a coesão territorial. O Interior de Portugal não precisa de piedade; precisa de estratégia. Não precisa de ser tratado como periferia sentimental da nação, mas como território de futuro, de inovação, de qualidade de vida, de cultura e de conhecimento.

Mas esta reflexão sobre liberdade e futuro não pode ignorar os riscos do populismo. Não o devemos transformar num “bicho-papão”, uma figura retórica, usada em muitos dos discursos que ouvi na Assembleia comemorativa do 25 de Abril, para dispensar o debate ou para dividir a sociedade entre bons e maus. Essa leitura seria demasiado fácil e, talvez, pouco democrática. O populismo cresce muitas vezes onde há abandono, frustração, desigualdade, distância entre representantes e representados, burocracias incompreensíveis e promessas sucessivamente falhadas. Ignorar estas causas seria um erro.

O verdadeiro combate ao populismo não se faz apenas com discursos indignados. Faz-se com melhores respostas. Faz-se quando a política volta a resolver problemas concretos. Faz-se quando os cidadãos sentem que são ouvidos.

Essa é a melhor forma de honrar Abril. Essa é a melhor forma de celebrar o trabalho. E essa é, acima de tudo, a melhor forma de dizer às próximas gerações que a

liberdade não foi apenas uma conquista dos que vieram antes, mas uma responsabilidade viva dos que ainda acreditam em Castelo Branco e em Portugal.

*Membro da Assembleia Municipal eleito pela Coligação “Sempre por Todos” (PSD/CDS)

COMENTÁRIOS