Na sequência de uma perseguição policial no Bairro do Zambujal, na Amadora, arredores de Lisboa, morreu o cabo-verdiano Odair Moniz, pai de família, alvejado por um muito jovem polícia. Este fatídico e triste acontecimento deu origem às mais diversas reacções de membros do governo, de alguns partidos políticos, da polícia e de uma boa parte da população jovem que vive nos arredores da grande Lisboa. Os distúrbios que duraram várias noites, com a destruição da propriedade privada e pública, apesar dos apelos do Governo à calma. Noite após noite, actos de vandalismo, praticados por grupos de jovens, alguns deles ainda adolescentes deixaram em cinzas peças de mobiliário urbano e carros e autocarros incendiados. Não faltaram casos de coctails- molotov e engenhos pirotécnicos, atirados ao longo da noite, contra transportes públicos e edifícios. As autoridades policiais presentes que acompanhavam estes condenáveis actos de vandalismo detiveram e identificaram dezenas de indivíduos suspeitos de praticarem tais actos, alguns deles, jovens de menor idade.
Face a este caldo de agressividade, a escalada da polarização do discurso político e dos apelos à violência marcaram estes nefastos e condenáveis acontecimentos.
No epicentro da agressividade verbal, encontra-se o partido Chega que se aproveitou desta onda de agitação social para, num discurso de ódio, oriundo de elementos da sua bancada parlamentar. Polarizou o discurso político que a direita radical se dedica a alimentar, por influência de outros partidos europeus de extrema – direita que comungam dos mesmos ideais políticos. Nada menos do que afirmar que Portugal seria melhor se a polícia matasse mais pessoas. Para tal, espalhou o seu ódio numa manifestação, por acaso pouco concorrida, onde se gritaram palavras de ordem, em defesa da polícia.
Só que, apesar de alguns acontecimentos que se foram sucedendo ao longo dos últimos anos, somos considerados como um país pacífico. Assim, olhando para algumas décadas atrás, verificamos que, acontecimentos como estes, não são uma total novidade. Acontecem de tempos a tempos, em alguns bairros periféricos de grandes centros urbanos. Ocasionalmente, cenas de violência, semelhante às que ocorreram neste bairro, recorde-se as que tiveram lugar em 2009 em Setúbal, no Bairro da Bela Vista. Um jovem de 20 anos, na sequência da morte com um tiro na nuca, disparado por um GNR teve o mesmo desfecho. Recordemos ainda casos muito iguais entre comunidades ciganas e africanas que viviam em barracas, mas que foram realojadas em Loures. Várias vezes se encontraram em situações bem semelhantes, em confrontos com a polícia.
Face aos últimos acontecimentos, o Governo, pela voz do primeiro-ministro, veio a público anunciando tolerância zero por parte da polícia, para com os actos de vandalismo que estavam a ocorrer nos arredores de Lisboa.
Deve perguntar-se então, qual será a melhor estratégia a implementar pelo Governo, para lidar como esta vaga de tumultos, desencadeados nas últimas semanas nos arredores da capital? A resposta não pode nem deve ser simplista. Para acontecimentos complexos, deve haver múltiplas medidas estudadas e implementadas com eficácia, ao longo dos anos. Não podem ser precipitadas. Levam anos a serem levadas ao terreno, sejam elas quais forem.
Especialistas já vieram a terreiro dar algumas pistas para que o Governo tenha em conta para não se precipitar, mas também para não ficar inactivo, perante tais actos de vandalismo.
Começam por criticar o pouco investimento do Estado na qualidade de vida destas populações muito marginalizadas. Acrescentam ainda que se deve diminuir a oposição existente entre centro da cidade e periferia uma vez que ela se tem intensificado, resultando no aumento da delinquência juvenil. Tenha-se em conta que o Relatório de 2023, para a área Metropolitana de Lisboa de Segurança Interna, assinala um crescimento de 8,7% de delinquência juvenil e uma subida de 14,8% da criminalidade grupal.
Por outro lado, acrescenta o Relatório, as redes sociais acabam por ser um facilitador da acção dos grupos marginais e agressivos. Com telemóveis no bolso de cada jovem, as mensagens voam tão rapidamente que não é fácil controlar estes movimentos que se espalham rapidamente por territórios semelhantes.
Tenhamos em conta que os actos de vandalismo a que assistimos nas últimas semanas continuará a ser cíclico se não se adoptarem medidas certeiras e globais, bem pensadas e concretizadas com conta peso e medida. Não esqueçamos que a agressividade gera comportamentos agressivos, de parte a parte.
florentinobeirao@hotmailcom