Negra está a terra, da cor do carvão.
Quase soa a requiem, que poderia ser entoado pela Lisga, pois negro é também o luto que os poucos que resistem nesta pequena aldeia cravada num dos limites do concelho de Castelo Branco, tocada por Oleiros a norte e Proença-a-Nova a sul, ainda não fizeram pelo que o fogo lhe levou.
Mais uma vez. O dia 13 de setembro de 2020 está-lhes na memória pelos piores motivos, apesar de dizerem que o fenómeno é cíclico.
Mas recusam habituar-se às perdas e às promessas que tardam a cumprir-se. Estão desiludidos.
Reconhecem a força indomável das chamas, mas apontam o dedo aos bombeiros, que unânimes afirmam “poderiam ter feito mais”, mas “infelizmente, só podem atuar à voz de comando de quem muitas vezes não está sequer no terreno”.
Outro alvo do desconforto é a Câmara Municipal de Castelo Branco, de quem esperavam “acudisse primeiro às pessoas e não à estrada”.
Três meses volvidos do incêndio que varreu a aldeia, lambida pelo fogo que lavrava nos concelhos vizinhos de Oleiros e Proença-a-Nova, o semblante dos que mantêm vivo este torrão continua carregado, pois lá diz o povo “quem espera, desespera”.
Perderam oliveiras, videiras, horta de subsistência, animais, palheiros e também quilómetros de canos que conduziam a água das nascentes até às suas propriedades. Mas o fogo vai-lhes consumindo também a esperança e resiliência.
Este Natal, a aldeia está coberta de um manto negro de cinza e o brilho que assalta os olhos deve-se às lágrimas que têm dificuldade em não deixar cair.