Manuel Cargaleiro depois do ato de doação das obras
Chegou a vender quadros seus para poder comprar e colecionar obras de outros artistas. A confissão foi feita pelo próprio há dias em Castelo Branco. E assim, para além do seu enorme poder criativo, reconhecido mundialmente, ao nível da pintura e da azulejaria, Manuel Cargaleiro conseguiu reunir ao longo dos últimos 70 anos um importante espólio artístico.
A maior parte dessas obras, incluindo muitas de sua autoria, têm sido doadas por ele à fundação que tem o seu nome e que está sediada em Castelo Branco. No passado dia 6 foram mais cerca de duas mil peças de arte, cujo valor estimado ascende a 1,2 milhões de euros, as que foram doadas pelo artista à sua fundação.
No final da cerimónia, o próprio frisou que “já são mais de sete décadas a reunir peças, obras feitas por mim mas também por outros que fui juntando e comprando”. “Não temos dinheiro, mas temos obras de um enorme valor, muito mais de dez mil nesta fundação”, destacou.
A importância de mais esta doação incrementa a dinâmica de uma fundação que quem lhe deu o nome considera ser “muito importante para o nosso país pelo número de obras que tem”.
“Castelo Branco tem sido fundamental para mim”, assevera Manuel Cargaleiro, explicando contudo que “a fundação ainda não tem a visibilidade que eu gostaria que tivesse, importa que a mesma se torne ainda mais conhecida em Portugal e no estrangeiro”.
Aos 95 anos, celebrados em março, junta para além de tudo aquilo que já fez uma lucidez e capacidade de trabalho que são invejáveis. “Vamos continuar a trabalhar e a fazer isto, a contribuir para o engrandecimento da cultura portuguesa e deste legado à fundação”, garantiu.
Castelo Branco está-lhe grato, sublinhou o vice-presidente do município albicastrense no mesmo ato. Hélder Henriques enalteceu o percurso da referência na arte internacional que é Manuel Cargaleiro e lembrou que “a capacidade que a arte tem de transmitir ideias (…) nas suas várias vidas e nos seus vários momentos”.
“O município tem colaborado como é sua obrigação com esta fundação”, frisou o autarca, antevendo que “se queremos transformar Castelo Branco na cidade das artes temos que transformar este museu num grande polo internacional de visitação e de criatividade”.
Hélder Henriques disse também que “Castelo Branco tem de ser líder e apresentar-se como exemplo neste e noutros domínios”.
DOAÇÕES A assinatura da escritura de doação pública teve lugar na sede da Fundação e do Museu Cargaleiro em Castelo Branco na presença do Conselho de Administração representado por João Teixeira e de Isabel Brito da Mana (vogal do conselho de curadores e companheira de Manuel Cargaleiro).
João Teixeira lembrou na ocasião que esta é a terceira doação realizada por Manuel Cargaleiro para a fundação desde a abertura do museu em Castelo Branco, em 2005.
Lembre-se que de então para cá, segundo a própria fundação divulgou, já foram doadas e inventariadas cerca de 12 mil obras, estando ainda a decorrer o inventário da restante coleção, trabalho que tem contado com o apoio da Câmara de Castelo Branco.
“Para a cidade esta doação é uma mais valia”, reforçou João Teixeira, deixando no ar a possibilidade de dentro em breve voltar a haver novidades nesta matéria.
Manuel Cargaleiro, a rematar, lembrou que a fundação possui ainda uma coleção de arte antiga que permitirá um dia efetuar uma exposição de azulejaria desde o período hispano-árabe à atualidade. “Gosto muito de mostrar o meu trabalho, mas também gosto muito que as pessoas apreciem os outros artistas e as nossas coleções, é cultura, é conhecimento geral”, referiu.
A tudo isto junta-se um também importante acervo de mais de três mil livros que enriquece a biblioteca da fundação. “Só sobre a obra de Picasso temos aqui 84 livros”, lembra Manuel Cargaleiro.