«Não há dúvida que a agricultura é a mais necessária de todas as artes, e deve merecer os primeiros cuidados de um bom governo.»
De vez em quando acompanho amigos em compras de queijo ou fruta produzidos nos campos que se iniciam no sopé da Gardunha.
Antes disponibilizava-me para ser eu a comprar e a entregar. Hoje percebo que o valor dado a um produto é tanto mais alto quando se conhece a origem e o motivo da sua qualidade e sabor.
A verdade é que os produtos desta região vêm somando prémios nacionais e internacionais, quer se trate de azeite, mel ou queijo e também a fruta como a cereja ou o pêssego são procuradas pelo nome do sítio onde são produzidas e apanhadas.
Os dizeres que encontrei num painel de azulejo em Tinalhas, fazem-me pensar em que cuidados se referia o autor para que o governo pudesse ser considerado bom.
O painel encontra-se num dos muros da propriedade da casa agrícola do Visconde de Tinalhas. Esta era conhecida pela diversidade do que produzia, pela qualidade dos seus produtos, mas também pelo empenho que os donos da casa tinham nas obras de cariz social e educativo-cultural, o que até hoje deixou boa memória nos que com eles se cruzaram.
Com a expansão da compra da pequena propriedade destinada a cultivo, a paisagem alterou-se, mas o saber tirar da terra o sustento ou o seu complemento continuou a ditar um viver ligado à agricultura.
Estamos, nesta década, a assistir à passagem destes terrenos para uma geração que, na sua larga maioria, tem memória dos sabores, mas já não os produz.
Com exceção dos que apostaram nisso para modo de vida, os proprietários herdeiros do minifúndio, não o cuidam da mesma forma que os seus pais e avós fizeram.
Parece inegável então que o bom governo tem de ganhar escala para se tornar em modo de vida, porque dificilmente voltaremos à pequena agricultura de subsistência.
Não podemos continuar a deixar entregue somente a si própria uma agricultura que produz com excelência a matéria prima de uma indústria transformadora reconhecida, base de atratividade de novos moradores ou turistas, pela paisagem que constrói e pelos produtos que estão na base do bem receber beirão.
Parece que no barulho que enxameia o espaço público, uma agricultura financiada pelo que planta, mas não por aquilo que colhe, uma propriedade que precisa de ser reordenada e os usos apropriados e rentáveis do espaço rural, apenas são considerados como sobras ou alternativas pouco desejadas à vida em espaço urbano.
Plantar indiscriminadamente painéis solares, legislar para fazer crescer habitação complementar aos aglomerados urbanos ou plantar intensivamente espécies vegetais que consomem a água que nos escasseia e que irão esgotar os solos é desperdiçar boa terra agrícola e oportunidades de crescimento sustentado. Principalmente se levarmos em linha de conta que as exportações portuguesas de frutas, legumes e flores atingiram em 2024 o número mais elevado de sempre.
Assim, parece-me lógico que o governo, lido a todos os níveis (proprietários, poder local, poder regional e poder nacional) deveria estar empenhado em defender o que é seu, fazendo-o prosperar, sem para isso deixar de lado a proteção dos valores ambientais e sociais.