Já vem sendo habitual, os noticiários abrirem com jatos de água, lançados sobre multidões de manifestantes, sobretudo jovens e com pedras lançadas por estes, contra os carros blindados da polícia, e manifestantes arrastados para as esquadras. Cenas terríveis que, por vezes, têm provocado elevado número de mortos. Quase todos os dias, um novo país se vem juntando a este clima contestatário.
Já passa mais de um ano que estas manifestações foram tomando conta de algumas capitais. De tal modo foram crescendo que se tornaram um dos atores mais importantes da política global.
Uma das lutas que mais se tem prolongado é a de Hong – Kong. Primeiro, em protesto contra a legislação que decretava a extradição de cidadãos desta cidade, para a China. Entretanto, a luta foi evoluindo, tendo-se virado também para a defesa da democracia e a liberdade. Os estudantes, encurralados na universidade, durante vários dias, demonstraram bem a sua tenacidade para manterem os valores que mais prezam.
Se olharmos para a vizinha Espanha, saída de recentes eleições, os protestos a favor da libertação dos líderes políticos, presos e condenados a penas de cadeia, não se têm calado, com avenidas a abarrotar de nacionalistas e independentistas, a disputarem entre si as suas divergências.
Nas últimas semanas no Chile, país do ditador sanguinário Pinochet, apesar dos trinta mortos já contados e centenas de feridos, a luta nas ruas não para de aumentar, em número e brutal violência. A partir de uma luta contra o aumento dos bilhetes do metro, o descontentamento alastrou de tal maneira que, nesta altura, já ultrapassou esta causa e se estendeu a uma contestação pelo baixo nível de vida das populações que gritam contra as injustiças de sociedade onde, meia dúzia de capitalistas, gozam de grandes fortunas, enquanto a maioria da população vegeta e passa fome. A grande desigualdade social é, neste caso, a fonte de revolta. Há muito dinheiro, mas capturado por poucos. O mesmo acontece na Colômbia, já com mortos e feridos nas ruas.
Se olharmos para o médio-oriente descobrimos o Líbano, com multidões descontentes, a lutarem contra a alta corrupção existente, causadora das injustiças sociais. Quando a troca de favores entre corruptos se sobrepõe à transparência, a população tem forte motivo para se revoltar. Deste modo, vão nascendo grandes fortunas, de um dia para o outro, com capitais passados por baixo da mesa.
Com a mesma problemática, se encontra ainda o martirizado Iraque, onde as manifestações tiveram a sua origem na demissão de um militar que combatia a corrupção existente no seu país. Este rastilho acabou por provocar uma forte luta contra a ineficácia dos serviços públicos, problema que se encontra latente na vida da população. Na Argélia, também grita-se nas ruas por novas regras de relacionamento entre Estado - sociedade.
Acrescente-se ainda o populoso Irão muçulmano que enche as avenidas com grandes manifestações contra a subida dos preços dos combustíveis. Na Índia, a população manifesta-se contra o aumento do preço das cebolas. Fiquemos por aqui.
Como verificamos, as causas das manifestações, mais ou menos numerosas e agressivas, muitas delas tiveram a sua origem em pretextos secundários, tomando, posteriormente, formas de luta, com dimensões mais vastas e profundas.
O que se encontra subjacente, como denominador comum, é o descontentamento geral da população, face às desigualdades económicas e sociais, a corrupção, a frustração face às promessas dos políticos, as profundas desigualdades sociais, as liberdades ameaçadas e o separatismo político.
Neste mundo tão complexo e perigoso, os cidadãos, com mais ou menos preocupação, quase todos se encontram possuídos por uma profunda incerteza, para eles e seus descendentes. Junta-se a toda esta problemática a elevada poluição que hoje atinge a terra e o mar, a ameaçar a vida no nosso planeta azul.
Hoje, pelo que ouvimos e lemos, existe um profundo desconforto, face ao fenómeno da exclusão de tantos que não são tidos em conta pelos governos, pelos partidos políticos e pelos sindicatos. Quando os responsáveis democráticos não resolvem os mais graves problemas das suas populações, logo surgem alternativas políticas, como foi o caso da última manifestação dos agentes de segurança. Neste caso, a extrema – direita, com o movimento zero e o partido Basta em bicos de pés, conseguiram ser os protagonistas de uma manifestação que não lhes pertencia. O mundo está mesmo perigoso.