Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Museu do Aljube: Sem memória não há futuro

Mário Afonso - 05/06/2025 - 9:01

Nesta viagem de memórias, em que a partir dos anos 80, faço o retrato do ensino, da educação e de Portugal veio-me à memória uma frase batida: “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Para mim, o significado destas palavras, lembra-nos que cada dia nos traz a oportunidade de recomeçar e de encarar a vida sob novas perspetivas. Num ano em que comemoramos 51 anos após a revolução democrática de 25 de abril de 1974, a propósito da liberdade que abril trouxe, a propósito das polémicas sobre as comemorações do 25 de abril, gostaria de dar o meu testemunho sobre uma visita a um museu: o museu do Aljube. Assim, num tempo em que os extremismos – políticos, religiosos, ideológicos- parecem ganhar nova força em várias partes do mundo, a preservação da memória histórica, torna-se não apenas relevante como essencial.  
O Museu do Aljube, em Lisboa, cumpre precisamente esse papel: é um farol de memória critica, um espaço que resiste ao esquecimento. História viva!
Instalado numa antiga prisão política da ditadura portuguesa (1926-1974), foi durante anos um local de repressão, de prisão, de tortura. Hoje é um espaço dedicado à memória da resistência em prol da liberdade e da democracia. E um espaço de preservação e valorização da memória na construção de uma cidadania democrática.
Imensos documentos audiovisuais fazem a história de Portugal desde a implantação da ditadura até à revolução de abril de 1974. Memorial de homenagem aos presos políticos; a caracterização do regime ditatorial português (1926-1974), os seus meios de repressão e opressão (a Censura, as polícias e os tribunais políticos).  A resistência das oposições, a prisão, a tortura, os curros de isolamento.  A guerra colonial, a luta anticolonial e os movimentos independentistas de libertação, o derrube da ditadura e o 25 de abril de 1974.  Sendo cada vez em maior número os que não viveram em ditadura, é urgente preservar a memória coletiva para que o passado não se repita. É uma forma de ensinamento aos mais jovens. 
Como nos lembra George Santayana, “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” Entre muitas imagens marcantes, retirei algumas frases de que, nós os mais velhos, nos lembramos: Não discutimos o trabalho, a autoridade, a família e a sua moral, a pátria e a sua história, Deus e a sua virtude – Oliveira Salazar.
O jornal é o alimento espiritual do povo e deve ser fiscalizado como todos os alimentos – Oliveira Salazar
Um recado se me é permitido. A liberdade de abril pertence-nos a todos. A Todos, todos, todos. Não é só propriedade de alguns iluminados, intelectuais e políticos, donos disto tudo (todos sabemos quem são) que se apropriam de abril, como se fosse um condomínio privado e fechado. O que abril nos trouxe é património de todos nós independentemente dos credos políticos, sociais e religiosos é evidente que cada um de nós pode ter leitura diferente de abril. Mas essa é a liberdade que nos legaram e que andam para aí muitos com vontade de a limitar.E termino com um poema de Manuel Alegre (1965)
Mesmo na noite mais triste/Em tempo de servidão/Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não. Sejam quais forem as nossas opções políticas e ideológicas, é um espaço a ver. Visitem o Museu do Aljube. Se possível em família.

COMENTÁRIOS