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Notícias do bloqueio

Costa Alves - 09/04/2020 - 11:04

                                    1
Do bloqueio te digo que estou no avesso de quase tudo. 
As mãos desconfiam das mãos e já não se chegam à pele; 
nem há palavras para plantar entre as ervas das mãos
e sossegar o que ainda pode ter sossego.
As pernas duvidam que ainda sirvam para caminhar
e há muito que o futuro não promete saúde ao mundo.
Viramo-nos para nós e não sabemos o que encontrar,
viramo-nos para o céu e apagamos as palavras vivas das ardósias. 
Fugimos dos litorais do medo
das ensombradas transumâncias metropolitanas 
remediando-nos em divisórias 
e assumindo a vida a arder.

                                    2
Do bloqueio te digo que o ar é já aqui
mas ninguém diz que é potável
e que leva desperdícios para onde não haja planetas.

Digo sim ao que dizia não
e assim me infeto com os sofismas do medo.
Até já me aninho no que me cala e uniformiza
sem cores nas folhas das palavras.

Estou recluso outra vez
(tenho outros cativeiros a corroer os veios da memória)
recolhido, atracado, confinado, expelido;
isolado, mas não apenas só.
Todos albergamos a mesma doença
remendados pela resignação.
Estamos aptos para deixar de nascer.

                                   3
Do bloqueio te digo que não tenho luz nas grutas da voz.
Não posso falar de onde me dói.
Nem de onde me dói posso aprender o que vai socorrer;/
nem rumores assomam nas ruas congeladas.

Consultei as estantes e não encontrei nenhuma gramática
que pudesse resolver a equação disforme, antiga, urgente,
de não saber como mudar o mundo.

Nenhuma epidemiologia conhece o genoma da doença
que se habilita e administra com cegueira.
Não consigo isolar o vírus de tamanha fragilidade. 

Saudades de falar com as árvores ao colo de um rio.

                                 4
Do bloqueio ainda te digo 
que este cativeiro se infiltra em todos os interstícios 
e não se trata com estreitezas metafóricas arregimentadas na guerra; 
é mais enigmático; sinuoso à sua maneira.
Ainda não há palavras para compor um idioma que fale com ele.
Na verdade, não posso comparar estrondos meteoríticos 
com violências infetadas pelo invisível. 
Lê Camus; mergulha na sua “Peste” e dirás. 

Do bloqueio ainda quero lembrar
que a Síria não tem casas aqui, 
embora vá atender mais este abismo; 
e sabemos que não tem ventiladores para mais um grito.
Seremos da nossa humanidade?

Há mais vírus em ebulição.
Veneza afunda-se no mar Adriático 
e Castelo Branco afunda-se no mar do despovoamento. 
Há tempo atrás de tempo que o sabemos.

Esta aldeia a que chamamos global 
tem petróleos inadmissíveis nos oceanos do ar, 
aldeias que não podem percorrer a sua aldeia 
cidades que se vão suicidando contagiadas pelo desperdício 
artérias com viroses nos quintais da desigualdade.
Não sabemos escapar desta roda dentada. 

Post Scriptum. Não tenho notícias do Curdistão.

                                         5
Este ano não se vindima o verão. 
O verão não estenderá as suas camisas nas dunas 
e os passos não irão abrir o mar nos meus olhos; 
nem os pássaros escolherão brisas a navegar;
apenas encontrarei areais na distância para o deserto.

Setembro acabará sem saber que foi setembro 
e perguntará se haverá outro setembro assim,
sem nascentes nas ruas queimadas.

Imagino setembro a lembrar-se deste março 
e a temer que novembro traga mais invernos assim.
Imagino os meses a quererem desfazer-se uns dos outros, 
como se cada mês fosse um ano 
e mais um ano sem casa em árvores que nos acolham 
e mais futuro com falta de luz que nos amanheça.

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COMENTÁRIOS

Olímpio Mendes de Matos
à muito tempo atrás
Gostei . Obrigado . Abraço e Boas `pascoas .