1
Do bloqueio te digo que estou no avesso de quase tudo.
As mãos desconfiam das mãos e já não se chegam à pele;
nem há palavras para plantar entre as ervas das mãos
e sossegar o que ainda pode ter sossego.
As pernas duvidam que ainda sirvam para caminhar
e há muito que o futuro não promete saúde ao mundo.
Viramo-nos para nós e não sabemos o que encontrar,
viramo-nos para o céu e apagamos as palavras vivas das ardósias.
Fugimos dos litorais do medo
das ensombradas transumâncias metropolitanas
remediando-nos em divisórias
e assumindo a vida a arder.
2
Do bloqueio te digo que o ar é já aqui
mas ninguém diz que é potável
e que leva desperdícios para onde não haja planetas.
Digo sim ao que dizia não
e assim me infeto com os sofismas do medo.
Até já me aninho no que me cala e uniformiza
sem cores nas folhas das palavras.
Estou recluso outra vez
(tenho outros cativeiros a corroer os veios da memória)
recolhido, atracado, confinado, expelido;
isolado, mas não apenas só.
Todos albergamos a mesma doença
remendados pela resignação.
Estamos aptos para deixar de nascer.
3
Do bloqueio te digo que não tenho luz nas grutas da voz.
Não posso falar de onde me dói.
Nem de onde me dói posso aprender o que vai socorrer;/
nem rumores assomam nas ruas congeladas.
Consultei as estantes e não encontrei nenhuma gramática
que pudesse resolver a equação disforme, antiga, urgente,
de não saber como mudar o mundo.
Nenhuma epidemiologia conhece o genoma da doença
que se habilita e administra com cegueira.
Não consigo isolar o vírus de tamanha fragilidade.
Saudades de falar com as árvores ao colo de um rio.
4
Do bloqueio ainda te digo
que este cativeiro se infiltra em todos os interstícios
e não se trata com estreitezas metafóricas arregimentadas na guerra;
é mais enigmático; sinuoso à sua maneira.
Ainda não há palavras para compor um idioma que fale com ele.
Na verdade, não posso comparar estrondos meteoríticos
com violências infetadas pelo invisível.
Lê Camus; mergulha na sua “Peste” e dirás.
Do bloqueio ainda quero lembrar
que a Síria não tem casas aqui,
embora vá atender mais este abismo;
e sabemos que não tem ventiladores para mais um grito.
Seremos da nossa humanidade?
Há mais vírus em ebulição.
Veneza afunda-se no mar Adriático
e Castelo Branco afunda-se no mar do despovoamento.
Há tempo atrás de tempo que o sabemos.
Esta aldeia a que chamamos global
tem petróleos inadmissíveis nos oceanos do ar,
aldeias que não podem percorrer a sua aldeia
cidades que se vão suicidando contagiadas pelo desperdício
artérias com viroses nos quintais da desigualdade.
Não sabemos escapar desta roda dentada.
Post Scriptum. Não tenho notícias do Curdistão.
5
Este ano não se vindima o verão.
O verão não estenderá as suas camisas nas dunas
e os passos não irão abrir o mar nos meus olhos;
nem os pássaros escolherão brisas a navegar;
apenas encontrarei areais na distância para o deserto.
Setembro acabará sem saber que foi setembro
e perguntará se haverá outro setembro assim,
sem nascentes nas ruas queimadas.
Imagino setembro a lembrar-se deste março
e a temer que novembro traga mais invernos assim.
Imagino os meses a quererem desfazer-se uns dos outros,
como se cada mês fosse um ano
e mais um ano sem casa em árvores que nos acolham
e mais futuro com falta de luz que nos amanheça.