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Notícias do bloqueio (II)

Costa Alves - 23/04/2020 - 9:45

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Do bloqueio ainda te digo:
Lavo as mãos a torto e a direito sempre com palavras a comandar. 
Olha que tens de lavar as mãos   as mãos   as mãos! 
E não as leves à boca   à boca! 
Olha que a boca tem céu na boca 
(céu na boca – não o infetes!)
Nem as chegues ao nariz   nariz! 
Ao nariz nem um petiz! - só amanhãs de quando comes romãs!
E (importantíssimo) nunca leves as mãos aos olhos 
- aos olhos só o olhar de quem mais olhas! 

Enfim, ponho máscara, tiro máscara e nunca uso nenhuma
(só com palavras consigo imaginar as que não há).
Aqui para nós que ninguém nos ouve:
não sei mascarar-me; quero dizer: mascarar-me de mim. 
Ficaria sem palavras olheirento, estranhento, 
e o espelho não me devolveria qualquer selo de reconhecimento.

Relato isto e sinto que as palavras começam a rarear.
Também estão confinadas   indecisas   desconfiadas   
tremeluzentes entre novenas para sossegar o imprevisível.
Mas não faço nada sem elas e o meu medo é que fiquem infetadas. 
Puxo as que se deixam arrastar para estas notícias, 
mas sinto-as cansadas e a não quererem fazer o trabalho que lhes peço. 
Atiro o balde e poucas querem abdicar da sua crença. 
Agarram-se aos fundos do poço
ou fincam os pés nas lâminas das paredes.
Terão medo de serem contaminadas, ou desistiram de mim? 
As que aceitam vir, de tão desconfiadas, 
já não condizem com o que eram, 
perderam sangue, atualidade, muitos significados; 
até a alavanca moral de me ajudarem a respirar.
Creio que estão zangadas com o mundo que lhes demos.
Algumas não querem sequer ser palavras; 
mesmo que apenas palavras, uma a uma. 
Nenhum argumento as demove. 
Preferem flutuar, levitar, adormecer 
nos fundos mais fundos dos sonhos que retive
e rejeitar qualquer companhia, 
mesmo a companhia de quem não faz nada sem elas 
(coser um botão, fazer a cama, pensar, escrever – estás a ver o drama?) 
Uma a uma, isoladas no seu leito de rio silencioso,
acorrentam as letras e fecham-nas; 
não querem ser pegadas, nem deixar pegadas. 
É certo que as vogais resistem; 
é da sua natureza quererem cantar e voar, 
abrir-se como pequenos sóis a ecoar, 
mas nem um passatempo as liberta deste alçapão. 

Acho que lhes peguei cansaço, cinzentos muito pesados, 
nuvens que já não se comovem,
confinamentos que a liberdade não aceita, 
racionalidades invertidas, 
sentimentos rasurados em apartamentos de sombra.
Enfim, não afluem; resistem. 
Estico a corda; debalde. 
Volto a atirar o balde mas a água é pouca 
e já ouço o metal das palavras que não querem ser identificadas. 
Recusam subir; 
dizem que estão fartas de ser abusadas 
e querem que as tome pelo que eram 
antes do tempo em que os vírus tomaram conta do que fazemos. 

Enfim, não vejo o que posso ver; 
a luz está aturdida, encurralada,
desmanchada por radiações que não conheço.
Tenho pouco oxigénio
e pressinto que não posso desprender-me
deste cerco com feridas tão arrastadas.
Hoje arrasto-me pelas ameias.
Ainda não consigo chegar à esperança
mas a esperança é capaz de tudo.

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