Depois das enxurradas que recebemos pelas televisões, acompanhando as exéquias da Rainha Isabel II, será altura de revisitarmos as nossas Alianças que, ao longo da nossa história, fizemos com a Inglaterra.
Nos tempos da Reconquista, foi graças aos Cruzados ingleses que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos mouros.
Em cenário atlântico, tanto a Inglaterra como Portugal foram convergindo nos seus interesses mútuos, alicerçando as suas alianças.
Porém, foi em 1373 que a mais antiga Aliança diplomática do mundo foi assinada entre Portugal e o Reino Unido. Este diploma foi-se mantendo até hoje, tendo tido importantes consequências para as duas partes.
Portugal, geograficamente amarrado a Espanha, com um pequeno território, múltiplas vezes foi cobiçado pela sua vizinha. Neste contexto, estrategicamente, uniu-se à Inglaterra para conservar a sua identidade e independência política.
Foi o que aconteceu no séc. XIV quando Espanha decidiu conquistar Portugal. Valeu-nos a ajuda Inglesa para derrotar o exército inimigo em Aljubarrota em 15 de Agosto de 1385. Com esta vitória, acabou por sair reforçada a Aliança entre os dois países a qual seria selada, um ano mais tarde, com o Tratado de Windsor em 1386 e o posterior casamento entre D. João I Mestre de Avis e a inglesa D. Filipa de Lencastre em 02.02.1387, cuja influência em Portugal foi notável. Deste casamento, brotaria a Ínclita Geração que deu novos mundos ao mundo, através das descobertas marítimas, iniciadas e apoiadas pelo Infante D. Henriques. Para memória da batalha de Aljubarrota foi erguido a nossa obra - prima medieval, o Mosteiro da Batalha.
A partir desta altura, estabeleceram-se relações comerciais entre o nosso país e os ingleses. Nomeadamente azeite, cortiça e vinhos.
Saltando para o século XVII, foi novamente importante a ajuda inglesa para a Restauração da nossa independência face a Espanha, com D. João IV da casa de Bragança, aclamado como Rei de Portugal.
Após a Restauração, o Tratado da velha Aliança foi reavivado em 1642, reafirmando a amizade recíproca entre os dois reinos. Nesta altura, Portugal deu à Inglaterra liberdade de comércio nos vastos domínios portugueses. Este tratado marcou o início da preponderância económica inglesa sobre Portugal e todas as suas colónias. Como consequência, ficou acordado o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra. Para assinalar este casamento, como dote, foram entregue aos ingleses as nossas colónias de Tânger em Marrocos e Bombaim na Índia.
No séc. XVIII, em 27.12.1703, celebrou-se o Tratado de Methuen com Inglaterra segundo o qual foi dado a livre entrada aos lanifícios ingleses em Portugal, resultando um grande declínio desta manufactura em Portugal. Mais tarde, o Marquês de Pombal tentou inverter esta situação, construindo fábricas de lanifícios, nomeadamente na Covilhã e no Fundão.
Os Ingleses também estiveram implicados na ajuda da sua marinha ao nosso Rei D. João VI, quando teve que fugir para o Brasil, em Novembro de 1807, fintando assim as tropas napoleónicas que queriam apoderar-se do nosso país. Esta invasão foi consequência do Bloqueio Continental contra Inglaterra, decretado por Napoleão que decidiu invadir Portugal, para o anexar a Espanha.
Quando a nossa Monarquia se refugiou no Brasil, o nosso país ficou a ser governado pelo general inglês Wiliam Beresford, enviado para Portugal pelo governo inglês. Em grande parte, os portugueses não aceitaram um estrangeiro a governar Portugal. Mas, em abono da verdade, recorde-se, foi graça à ajuda inglesa que conseguimos repelir o invasor francês. As relações entre Portugal e Inglaterra também conheceram período de grande tensão. Nomeadamente, devido ao Ultimato Inglês que impôs a Portugal o abandono dos territórios situados no denominado mapa Cor-de-Rosa que unia Angola e Moçambique. Este Ultimato gerou uma forte reacção em Portugal, por nos sentirmos humilhados, resultando em grandes manifestações em Lisboa que favoreceram os republicanos.
No séc. XX, durante a I Guerra Mundial (1914-1918) a Aliança foi invocada em 1916 para as tropas portuguesas combaterem ao lado das inglesas.
Durante a II Guerra Mundial (1939-1945) a Aliança foi novamente activada para o estabelecimento de bases militares nos Açores. Em 1961, houve um esfriamento devido a Salazar não ter podido contar com o apoio inglês, em defesa da nossa colónia da Índia.
Finalmente, durante a guerra das Malvinas em 1982, a Aliança foi novamente invocada, para apoiar a Real Marinha Britânica, na base dos Açores. Hoje, a Inglaterra é um dos grandes destinos emigratórios da nossa bem preparada juventude.