Sociedade dos amigos do museu lançou uma biografia dedicada ao artista.
Álvaro Canelas tem nome de rua em Castelo Branco, mas também em Luanda. Nasceu no início do século passado, a 1 de abril de 1901, em Castelo Branco. Foi um cidadão do mundo. Artista em Paris, onde passou grandes dificuldades. Um homem que sempre pensou pela sua cabeça e que tinha uma veia artística e poética como ninguém.
Quando passam 117 anos do seu nascimento, a cidade albicastrense recorda o homem que na sua época foi visionário e reconhecido pelos seus pares. Depois da inauguração de uma exposição, no Museu Tavares Proença Júnior, onde surgem desenhos seus, a Sociedade dos Amigos do Museu lançou, no passado sábado, uma biografia inacabada dedicada ao artista.
Adelaide Salvado, autora da obra, recorda que "Álvaro Canelas era um sonhador e possuía, por certo, a inquietude de alma que carateriza os artistas. A dedicação a um ofício não se perfilava com os seus sonhos de futuro. Dotado de forte e determinada personalidade, para garantir a sua liberdade e uma certa autonomia que lhe permitisse decidir o rumo da sua vida e traçar o seu próprio destino, com apenas 16 anos resolveu assentar praça".
A apresentação da obra, que tem a edição da RVJ Editores, foi feita por Fernando Raposo, docente da Escola Superior de Artes Aplicadas de Castelo Branco, numa sessão que contou com as presenças de Carlos Semedo, assessor da autarquia para a área cultural, e do editor do livro.
Excelente pintor e caricaturista, Álvaro Canelas fez exposições de relevo internacional, e enviou, em 1928, ao então Presidente da República, Bernardino Machado, uma caricatura, com a seguinte dedicatória: "A Sua Excelência Senhor Presidente da Republica Portuguesa - Estes modestos traços como,- inconfundível admiração".
Mas Álvaro Canelas escrevia também de forma fácil e fundou em 1931, em Lisboa, a revista «A Vida», cujo primeiro número saiu a público em julho desse ano. É ele o proprietário e editor, sendo a direção da responsabilidade do poeta e escritor Joaquim Aleixo Ribeiro.
Como refere a autora deste catálogo-biográfico, onde também surgem as imagens da exposição patente no Museu, este é um livro inacabado. Quanto mais se lê sobre a vida deste albicastrense mais se quer saber. "Álvaro Canelas fez parte do leque de artistas (escritores, pintores, músicos, desenhadores) que integraram missões encarregadas de recolhas etnográficas nas colónias africanas e asiáticas", como é explicado no livro. Trabalhou em Timor, onde desempenhou um cargo administrativo. Em Angola fez uma missão de estudos artísticos.
Em plena 2ª Grande Guerra Mundial, o seu amor à França e aos valores da Liberdade levam-no até à África Equatorial Francesa onde, em outubro de 1942, adere ao movimento «Les Français Libres». No livro, Adelaide Salvado recorda que aquele movimento, criado em Londres pelo general De Gaulle, tinha como propósito congregar esforços e, sob múltiplas formas, lutar contra a ocupação alemã, afirmando perante o mundo que a França, embora amordaçada e ocupada, continuava fiel aos princípios que desde a Revolução lhe moldavam a alma". E na Radio Brazaville, criada por De Gaulle nessa colónia francesa, como a voz da liberdade da França ocupada, teve, em 1942, Álvaro Canelas foi um dos seus locutores. Parte da admirável história de Álvaro Canelas pode ser lida neste livro, disponível na Sociedade dos Amigos do Museu Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco.