Os Jesuítas, para resolver uma questão existente entre dois deles, não a discutiam sozinhos. Faziam uma caminhada a três, em que um terceiro elemento que não tem qualquer interesse nessa matéria, se torna um elemento neutro que ajudará a ultrapassar o problema.
Contaram-me esta história numa das inúmeras visitas que fiz a S. Fiel, a propósito dos longos corredores que aquela casa tem. Não sei se é verdadeira, mas gosto do conceito. A explicação é simples: qualquer educador entende que, numa briga entre crianças, o adulto será o responsável por decidir a partilha do brinquedo.
Gosto de pensar em princípios simples, mesmo quando se trata de problemas difíceis. Porque acredito que a base de resolução será sempre a mesma. É preciso conhecer a questão para poder resolver, mas não ter qualquer interesse nela, para que o resultado final seja justo.
Este deambular pelo mundo das ideias vem da constatação da inexistência nestes territórios de poderes de decisão efetivos que regulamentem os atores locais. Os formais, os que existem, estão longe de cumprir o seu papel, por morosidade, por falta de legitimidade ou por estarem feridos na sua representatividade.
A reação do comum cidadão é um simples encolher de ombros, o descrédito e a não vontade de participar. Nas conversas de café lá vão surgindo os assuntos, na maior parte das vezes apenas para acrescentar mais uns pontos às histórias e engrossando ainda mais o número dos que deixaram de acreditar.
Não acredito que se possam generalizar conceitos e comportamentos, mas o que temos assistido não vem ao encontro desta crença.
Estamos a assistir a um efeito bola de neve onde são enrolados todos os que participam ou participaram em papéis públicos, fossem eles pagos ou não.
Enquanto cidadã, participante de movimentos associativos e ex-gestora pública, parece-me que é tempo de acabar com este cenário que só traz algo de bom a um número ínfimo de pessoas. Quero crer que é altura de exigir a presença de atores desinteressados que zelem pelo bom papel desempenhado por quem decide e por quem recebe para redistribuir.
Desde o início do pensamento do processo de descentralização que acrescento também a desconcentração do Estado. Têm que existir estruturas próximas, atentas e atuantes de acompanhamento e fiscalização de todos os serviços prestados aos cidadãos. Estruturas multipartidárias, multifuncionais e com poder de intervenção que possam decidir supramunicipalmente sobre o bem comum. Para que não existam cidadãos de vários níveis.
Para que o bem público não seja um grande conjunto de males privados.