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Uma democracia em crise

Florentino Beirão - 07/03/2019 - 9:10

Os números revelados pelo último Eurobarómetro, sobre a opinião pública em Portugal, confirma sem margem de dúvida, que o desencanto dos portugueses com os seus partidos políticos, é mesmo muito grande. Segundo a referida sondagem, apenas 17% dos eleitores confiam nos partidos políticos. Para contrabalançar o número dos desiludidos dos partidos políticos, com falta de confiança nos mesmos, esta sondagem, em relação ao Governo, revela que 43% dos portugueses se encontram satisfeitos com a sua governação. Dado que esta percentagem é superior à média europeia, certamente deixa bem confortável o executivo, liderado por António Costa, de braço dado com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista. Quanto ao Parlamento português, a percentagem atinge os 37% de confiança dos cidadãos.
Estas percentagens só poderão surpreender os portugueses, que nos últimos tempos têm andado muito distraídos em relação à nossa vida política. Na verdade, os nossos partidos, com alguma frequência, têm oferecido bastantes trunfos aos cidadãos que se foram distanciando deles devido às suas ilegais e tortuosas práticas comportamentais, nada recomendáveis. Quem não recorda recentes tropelias enganosas de alguns deputados, que com falsas presenças, tentaram enganar os seus pares, não comparecendo nos plenários da Assembleia? Que dizer de moradas fictícias de alguns deputados, para subtraírem mais uns euros ao erário público? Junte-se a estas diatribes as falsas promessas de muitos políticos que tudo prometem para caçar o voto, mas logo se esquecem no virar da esquina, das suas enganosas palavras. O povo, como tem boa memória, em virtude de ser espoliado e enganado, cada vez mais se vai afastando da política, abstendo-se mesmo de se deslocar às urnas e aos almoços grátis de algumas campanhas. As televisões disto nos vão dando conta, ao revelar-nos cada vez mais, que em vez dos antigos comissos partidários realizados em praças públicas, a abarrotar de gente arregimentada, ultimamente têm optado geralmente por recintos fechados onde, em fartas refeições fazem agora a sua propaganda.
Até ao dia 26 de maio, dia das eleições para o Parlamento Europeu, não faltará o folclore do costume. Na folia do Carnaval e após este período, de cidade em cidade, não faltará quem grite aos quatros ventos e ostente grandes e opulentos placares publicitários, com mensagens apelativas, para cativar os eleitores indecisos. Porém, se a habitual percentagem de eleitores se mantiver este ano, como tem acontecido em eleições anteriores para a Europa, com cerca de 30% de votantes, será mais uma prova de que os cidadãos continuam desencantados com as erráticas políticas europeias, as quais nos têm mantido acorrentados às suas diretrizes de contínuo aperto do cinto.
É verdade que sem partidos políticos, não poderá existir uma autêntica vida democrática. Eles são a estrutura indispensável à organização de uma sociedade civilizada, próspera e moderna. Basta olharmos hoje para a Venezuela, como ontem para o nosso Estado Novo, para concluirmos que sem partidos políticos fortes e livres, não há qualquer possibilidade de se viver decentemente, com respeito pelas opções livres dos cidadãos, manifestadas através do voto secreto.
A partir de agora, vamos entrar num longo ano eleitoral. Para além das eleições para o Parlamento Europeu em 26 de maio, logo em setembro irão decorrer as regionais na Madeira rematando-se este ciclo, com as legislativas em outubro. Estas já terão novos partidos a testar a capacidade do PS, em atingir a maioria absoluta.
Se continuar minoritário o partido do primeiro-ministro, estarão os seus atuais aliados, dispostos a manter o apoio a um governo minoritário? Será que o PSD, muito enfraquecido nesta fase do campeonato, irá subir nas intenções de voto, mordido que se encontra pelo novo partido de direita a “Aliança” e pelo seu antigo companheiro de governo, o CDS?
Podemos ainda adivinhar o provável nefasto papel das “faknews” (notícias falsas) nas próximas eleições para as quais, segundo referido Eurobarómetro, 46% dos eleitores portugueses não estão preparado para as identificar? Vastas e complexas questões que só o tempo nos poderá devolver a resposta. Mas, se é verdade que os portugueses se encontram bastante desencantados com os partidos políticos, terá chegado a hora, a bem da nossa democracia, de se caminhar para uma maior verdade e transparência dos partidos, bem como de uma maior aproximação entre eleitores e eleitos. Se necessário for, pois que venha a tão falada reforma eleitoral.

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