Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Sobre um país esquecido

Luís Beato Nunes - 25/01/2018 - 9:47

Ainda no ano passado, após a catástrofe de outubro, o filósofo José Gil concedeu uma entrevista a Lúcia Crespo e Miguel Baltazar do Jornal de Negócios, onde colocava o dedo na ferida sobre a disparidade entre duas realidades nacionais que não podem continuar a viver paralelamente. 
José Gil afirmava que “(...) nos habituámos a pensar, a pensar e a gostar de pensar, e a julgar até que basta pensar para que tudo se resolva” e o problema do esquecimento progressivo do interior do país precisa de medidas concretas para a fixação de pessoas e empresas e para o seu desenvolvimento sustentável.
Anúncios de investimentos desconectados e meras declarações de intenções são manifestamente insuficientes para endereçar a progressiva desertificação, e consequente esquecimento de muitos concelhos raianos que acabam por perder a sua ligação cultural ao resto do país.
Mesmo a cultura popular destas regiões, eternizada nas tradições que vão passando de geração em geração e que representam o país em diversos eventos nacionais e internacionais é, muitas vezes, desprezada pelos intelectuais que marcam as tendências culturais do país. 
Segundo José Gil, “a sociedade está-se absolutamente nas tintas para a cultura popular, o que interessa é a alta cultura do Eça de Queirós” e esta ainda olha com altivez para os agentes culturais mais populares e para o que é feito no interior do país.
Acrescentaria que as elites urbanas sempre negligenciaram autores “provincianos”, como António Aleixo, que, apesar do seu analfabetismo, nos deixou das reflexões mais sérias e pertinentes sobre o cinismo social que marginaliza os que ousam criticar o pensamento dominante.
“Há tanto burro a mandar/Em homens de inteligência/Que, às vezes, chego a pensar/Que a burrice é uma ciência”, apenas para citar um dos poemas mais conhecidos do autor algarvio que tão genuinamente desconstruiu tantas doutas “verdades” urbanas e engravatadas.     
Assertivo nas suas afirmações, José Gil referia ainda na entrevista ao Jornal de Negócios que “as pessoas do interior são pessoas esquecidas, elas não existem, e elas sabem que não existem e que não contam para o Estado”.
O interior e as suas necessidades e preocupações parecem esquecidas entre notícias triviais que têm a atenção dos media nacionais, rendidos ao que se passa nos dois principais centros urbanos do país e no acompanhamento do quotidiano de meia dúzia de “celebridades” nacionais e internacionais.
O interior acaba por ser o centro das atenções pelos piores motivos, sobretudo pelas catástrofes dos incêndios que tendem a repetir-se todos os verões, mas esquecido quando se trata de implementar medidas que auxiliam os concelhos do interior a superar as suas fragilidades derivadas da sua condição de periferia. 
Para este novo ano, e para todos os que se seguirão, é fundamental que os concelhos do interior tenham a atenção que merecem, até porque são estes os herdeiros das tradições mais genuínas do país, apesar de a desertificação parecer condená-los a uma negligência pelos centros de decisão nacionais.
Em suma, este novo ano é uma oportunidade de implementar uma nova política de gestão do território, canalizando os recursos necessários para que o interior tenha as mesmas condições de desenvolvimento dos concelhos do litoral mais densamente povoados.   
[email protected]

 

COMENTÁRIOS