Temos assistido, nos últimos tempos, à multiplicação do número de países onde o populismo se vai alastrando, como mancha de azeite. Lentamente, se vão conquistando eleitores intoxicados por mensagens simples e bombásticas, baseadas em “fake news” – notícias falsas - capciosamente elaboradas, para enganar ou confundir ignorantes ou mal informados. Todos conhecemos a estratégia destes desonestos políticos. Enviam falsas verdades aos milhares, através dos novos meios de comunicação, tentando que elas se vão transformando em verdades.
Os campeões deste tipo de populismo são conhecidos: Trump, Putine, Netanyahou, Le Pen, Salvini, Orban e Bolsonaro. Na Europa, nos Estados Unidos e, ultimamente no Brasil, este fenómeno populista tem-se vindo a alastrar, como uma mancha de azeite. Todos os referidos governantes têm manipulado e utilizado falsas notícias para conquistar ou manterem-se no poder. Falar verdade deixou de ser a sua normal maneira de estarem na vida política.
O velho sonho de uma mundialização feliz, fundada na livre circulação de saberes verificados, está-se assim a transformar num pesadelo, sendo os factos rebaixados ao lugar de opiniões. Estas, como por magia, passam a ser as verdades alternativas. É com o que deparamos, quando os populistas xenófobos, intolerantes e racistas fecham fronteiras e prometem eliminar da sociedade todos os que, supostamente, atrapalham a vida dos países. Na lista dos descartáveis, encontram-se os emigrantes, os homossexuais, os adversários políticos e os supostos malfeitores. Se, com Hitler, eram, sobretudo os judeus, comunistas e ciganos a eliminar, agora, a lista dos populistas inclui muitos mais. Estes, a crescerem em alguns países, colocam-nos a seguinte interrogação. Como se chegou, tão rapidamente, a esta complexa e nefanda situação? As respostas podem diferir de país para país. Mas há algumas razões que julgamos ser transversais e fáceis de elencar. Iniciemos a listagem pela globalização mundial que tem produzido imensa pobreza no mundo, embora se tenha verificado, em alguns países pobres, melhores níveis de vida. Ligado a esta causa, o desemprego galopante de tantos que vão sendo marginalizados pelo sistema capitalista, onde só o lucro parece contar. Lançados na pobreza e no desemprego, cresceu a marginalização social e a emigração, causadoras de radicalismos. Deste modo, se foi criando uma sociedade violenta onde o crime, a insegurança, os homicídios e os roubos se tornam frequentes. Neste caldo social, torna-se fácil aos populistas prometerem colocar um ponto final nesta problemática situação. Outra das razões poderá ser o desfasamento social entre um pequeno número de pessoas muito ricas e a multidão de pobres, marginalizados em campos de refugiados, sem o mínimo de condições de vida. Acrescentemos ainda outra, muito comum nas democracias formais. O desfasamento entre os eleitores e os eleitos. Em vez dos políticos servirem o bem comum, com dignidade e ética, alguns se vão aproveitando dos seus chorudos lugares para se servirem a eles próprios, por vezes, através de subornos e corrupção. O seu enriquecimento rápido, através de meios ilícitos, naturalmente, provoca revolta no cidadão. Vota num partido para melhorar a sua vida e dá-se conta que pouco ou nada muda a seu favor. Face a tudo isto, a onda do populismo tem-se vindo a alastrar em vários países, podendo colocar em risco as suas democracias.
Antes que seja tarde, torna-se assim urgente reagir aos populismos que têm vindo a conquistar o poder através do medo e invenção de notícias falsas. Impõe-se assim aos democratas, o imperioso dever de defender a democracia, onde a paz, a tolerância, a liberdade de pensamento e a convivência entre todos sejam conquistas a defender sempre. Importa pois que o jornalismo sério se sobreponha às falsas notícias com que os populistas nos procuram enganar. Como sabemos, o emotivo e o irracional populismo tornaram-se os grandes inimigos das democracias, lançando no ar a confusão e a mentira que hoje se espalham tão rapidamente. Na verdade, como refere o pensador Annah Arend, “um povo sem capacidade de pensar e julgar, não pode ser livre”. E acrescenta “se todos temos sede da verdade, a desregulação do mercado da informação, a multiplicidade dos emissores, a ausência do escrutínio e da hierarquia das fontes, criaram um mundo de desconfiança à volta das instituições e uma sombra na vida das democracias”. Deste modo, se prefere o parecido ou semelhante, à verdade e à realidade dos factos. Intoxica-se para se poder reinar.
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