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Opinião: Debita Nostra XCIX

Luis Costa - 31/10/2018 - 10:14

Não se tratava de sucumbir ao neoliberalismo ou ao fundamentalismo do mercado. Pelo contrário, eu argumentei que os sociais-democratas tinham que ir para além de duas filosofias, caducas ou comprometidas, do passado. Sendo uma o neoliberalismo e outra a ‘velha social-democracia’, caracterizada pelo descendente comando do Estado sobre a economia e a gestão keynesiana da procura nacional.” (Tradução livre de Anthony Giddens, ‘The Third Way revisited’, 2010).
O atrelar da democracia às variantes de uma ‘sociedade neoliberal’ tornou-se manifestamente perigoso. Vão-se assim multiplicando as suas versões apócrifas, como contraponto de um não menos anunciado ‘suicídio político’: a trituração por uma implacável máquina económico-financeira, eventualmente embalada num generalizado conformismo. O ‘não se passa nada’ por que costumam colapsar os sistemas políticos.
Tudo depois de as perspetivas resultantes do confronto com o liberalismo de alguma forma se lhe haverem rendido. Ou porque, qual caloiros, lhe adotaram a sebenta, ou pela óbvia incapacidade de lhe desenhar uma alternativa credível, à dimensão dos novos contextos e problemas que, entretanto, suscitou.
Questões planetárias, como a da regulação e taxação de transações financeiras, de um paradigma de direitos políticos e sociais e de organização do trabalho, de controlo da produção, de proteção do consumo e preservação do ambiente, aí estão por atender. Tantas vezes com a grata, se não elogiosa, complacência da sua matriz neoliberal, face à prazenteira coerência de uma descompassada oposição. 
E se há quem acalente a estandardizada crença numa ‘exequível, eficaz e universal’ (s)(rev)olução, no caso do reformismo social-democrata é evidente que a globalização lhe foi puxando o tapete keynesiano, pensado à medida de muito mais curtas ambições.
Ter-se-ia, então, gorado o duplo propósito de Guiddens e da sua “terceira via”, nesta justificativa “revisitação”. Não só pelo facto de que o liberalismo dispensa bem envergonhadas cópias, mas também porque o trabalhismo social-democrata já lhe reage no contrito propósito de um regresso às origens (Jeremyn Corbyn). E numa coisa tem razão: não há nada na lógica neoliberal que não prenuncie um contumaz desastre como o da histórica “Questão Social”. 
Mas, porque é que os mesmos princípios que a recusam haveriam de hoje caber nas mais coçadas fórmulas, perante tão diversas formas de exclusão!?
É claro que a atraente singeleza dos determinismos e das bipolaridades, pode explicar muita coisa, que não tudo. Se eu acreditar que a História um dia se desdisse, privilegiando alguns com a revelação do seu enredo e o dom do seu desfecho, já tenho análise que me chegue. Basta tomar partido por que o destino se cumpra.
Porém, a ‘sorte’ das inconstantes “vitimas da fome” (pobreza) sempre se deparou com uma fatal contradição: os pobres não têm poder; e, quando ganham algum (contra)poder, já deixaram de ser pobres. 
O que terá instado o próprio reformismo a demandar mais idónea sustentação social.

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