"Não estou aqui a falar estritamente de escravatura, mas daquele processo que desaloja as pessoas das redes de compromisso mútuo, história partilhada e responsabilidade coletiva que fazem delas o que elas são, para as tornar comerciáveis, ou seja, para fazer delas objeto da lógica da dívida. A escravatura é apenas o limite lógico, a forma extrema de tal desenraizamento.” (Tradução livre de David Graeber, 2011, Debt – The first 5000 years, pp. 163).
Ainda que redundante, a importância antropológica da relação com o ‘outro’ reside no facto de ela se pautar pelas fronteiras, variáveis que sejam, que o separam do ‘nós’.
Ou seja, distinguir o proibido (diferente) que concorre com a nossa identidade (sobrevivência), do permitido que a protege e reforça, ou lhe é de todo irrelevante. É a este dilema que quase se resume a história da civilização, sempre perpassada pelo fenómeno da ‘dívida’ e das colaterais violência (física ou simbólica) e servidão.
Não cabe aqui recuperar esse processo (DEBITA NOSTRA V a XIX), mas tão só relembrar a sua persistência, de alguma forma ainda manifestada pelas compensações de guerra a que uma derrotada Alemanha (1918) se obrigou, só cruentamente reparadas por novo conflito e o subsequente perdão da dívida (1953).
Nesta perspetiva, porém, a questão moral nunca foi a de não fazer ao ‘outro’ aquilo que não queremos que ele ‘nos’ faça, já que a reciprocidade sempre esteve pressuposta. Mas antes a da amplitude desse ‘nós’ e a da sua elasticidade, com que a humanidade também pôde traçar gestos da mais rara generosidade.
Assim, o ecumenismo de Paulo, soltando o cristianismo do casulo de seita judaica ou de ramo tardio da dos essénios. Assim, a ambição da Declaração de Independência dos EUA, ao considerar “que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão vida, liberdade e busca da felicidade” (1776).
Ora, é perante esta largueza, e a dificuldade em alcançá-la, que as mais restritas identidades ganham em importância, já que, como refere Graeber, todo o processo de sujeição do ‘outro’ passava por desatar-lhe os laços da proximidade que dele faziam um ser humano.
Foi assim com os cativos, os escravos, em geral, considerados “res” (coisa) pelo Direito Romano, e com a colonização do “selvagem”. Mas também com o confinamento do ‘outro’ ao individual, os ‘mal urbanizados’ da Revolução Industrial, os ‘pré-robots’ do fordismo, a atomização do trabalho e a impessoalidade do mercado universal.
Não são então contraditórios, a não ser para um forçado maniqueísmo, os círculos concêntricos em que se ‘matrioska’ a nossa identidade. Até porque aquela relação com o ‘outro’, a começar pela do mercado, nunca foi a pintada relação entre iguais.
E precisa mesmo que se possa alargar o ‘nós’, para que, a nível global, reganhe algum equilíbrio