Os antídotos habituais e culturais, “civilizacionais”, a moderação, a civilidade que antes se chamava “boa educação”, desaparecem em sociedades em que a maioria dos adultos viveram toda a vida dominados por um princípio lúdico e de prazer, e que, com o avanço das contrariedades, reagem com depressão, torpor e fúria. Muitas discussões revelam como o fim do mundo pacífico e relativamente fácil e prazenteiro em que a Europa viveu nas últimas décadas suscita egoísmo e fúria.” (Pacheco Pereira, Público, 23-07-22).
É claro que não se trata aqui de estigmatizar a (mais expressa ou mais latente) conceção ideológica de que o bem-comum há de espontaneamente resultar da prossecução do interesse particular. Nem de recusar o direito de a ter ou então ignorar os ganhos de produtividade (e produto) que sempre hão de advir de uma motivação (de todos) pelos respetivos interesses. E, muito menos, de sugerir a sua substituição por um repressivo predomínio das diretivas estatais, ao serviço da conveniente dialética de que os opostos se costumam, reciprocamente, sustentar.
Trata-se tão só de a localizar nos seus limites e “desconstruir” na ambiciosa pretensão com que se ‘naturalizou’, como se alguma vez tivesse transcendido a imanência daqueles regateáveis interesses. Relembrando que até nasceu de uma tão proclamativa quanto circunscrita liberalidade e que sempre navegou pelos mares de uma glosada, mas viciada, competição.
Mas, sobretudo, observando como se pôde incrustar no senso-comum, numa perigosa trajetória em que, pela ânsia de sobrevalorizar o individual, lhe perdeu de tal modo o freio, que já pouco resta da sociabilidade em que o caráter pessoal se pode ainda exercitar ou sobreviver.
Por aí se foi, da debilitação das democracias, na perda do seu sentido gregário (Debita Nostra CLXXXII a CLXXXVII, à generalizada convicção de que nas nossas escolas se ‘apura’ tão só o mérito individual. De que um ‘mal-amanhado’ “ranking” é viç(ci)osa e institucionalizada demonstração (Debita Nostra CLXXXIX).
Por aí se há de ir, na argumentação de que tal caldo de cultura, que consagra a ‘individualidade’ como reduto e sede da máxima fruição (Debita Nostra CLXXXVI), é parte daquele mesmo processo. Quer pelo geral ‘traçamento’ do tecido social, e consequente fragilização das vivencias democráticas, quer pelas suas vividas consequências, como a do ágil reforço da estratificação social por discreta cumplicidade da escola.
É que não é só a “depressão, torpor e fúria” com que o “princípio lúdico e de prazer”, instituído em nome de um sôfrego apelo ao consumo (por que se sobrepõe o princípio do progresso do “mercado” ao da satisfação das necessidades humanas), nos leva a reagir ao “avanço das contrariedades”. É também a divulgada ideia de que, com as escolhas certas, tudo na vida se pode obter “prazenteiramente”. O que nem carece de uma esforçada ilustração.
Mas há de ter sequelas nas trajetórias escolares.