No dia 10 Outubro de 1999, no Largo do Rato, assiti à comemoração morna da segunda vitória de António Guterres à frente de um Governo Socialista. Passados dois anos, aquele que é considerado um dos melhores de nós, demitiu-se «para que o País não caísse num Pântano».
António Arnaut, pai do sistema público de saúde português, afastou-se dos palcos partidários quando, como ele próprio dizia, se instalou a corrupção.
O que têm em comum estas duas figuras maiores do PS? O desprendimento. O saber que não se é o lugar que se ocupa. Que os lugares se desempenham por missão e não por profissão. Que nos partidos se fazem amizades, mas que não são um clube de amigos, muito menos um clube de negócios.
Têm vindo a público, de diversos quadrantes e geografias, notícias de processos de investigação, suspeitas, acusações da justiça, que não são mais do que provas da existência do terreno pantanoso de que Guterres falava.
E é no terreno da Justiça, dos seus inúmeros procedimentos, que se joga a imagem e o papel dos decisores políticos nacionais e regionais. Ganha-se tempo para se tentar limpar imagem ou para fazer passar a dúvida sobre as próprias decisões judiciais. Anos. Os processos correm numa modorra de anos.
«O desconhecimento da Lei não aproveita a ninguém» dizem os professores de Direito para explicar que não se pode invocar o não conhecimento de uma Lei perante a evidência de uma transgressão.
E se é verdade que ao avolumar de provas, inquirições e processos de investigação apenas se encolhe os ombros com um singelo «eu não sabia», não menos verdade será que a imagem de uma região, cidade e instituição se torna digna da mais profunda consternação para quem vê de fora.
Mas, como quem sabe do convento é quem está lá dentro, independentemente das decisões da justiça, o que terá validade será o que os eleitores decidirem fazer com a informação que entretanto lhes chega: continuar placidamente a assistir, lutar por que se mantenha o estado a que se chegou, perceber que o pior que nos pode acontecer é continuar no mesmo registo, independentemente de quem forem os protagonistas. Aqui, como em tudo o que tem realmente importância na vida, a decisão é exclusivamente pessoal.
Eu, tenciono fazer a minha parte.