Neste início de ano escolar, não são só as crianças que regressam às salas de aula. Também é frequente, as chamadas universidades seniores ou outras iniciativas culturais ou recreativas, convidarem os mais idosos para frequentarem diversas atividades lúdicas, adaptadas às suas idades. Lentamente, estes espaços têm-se espalhado pelo país fora, produzindo ótimos resultados. Mesmo nos tradicionais lares para idosos - de que temos conhecimento - a oferta de enriquecimento cultural, até mesmo a nível das novas tecnologias, tem-se desenvolvido, cada vez mais. Iniciativas louváveis para quem quer dar qualidade de vida aos idosos que enriquecem as sociedades mais desenvolvidas. Na verdade, não interessa só conseguirmos ganhar anos à vida. O que mais importa é darmos vida aos anos que vivemos.
Todos nós, quando pensamos nos anos finais da nossa vida não queremos apenas viver mais tempo. No fundo, o que todos nós mais desejamos é viver, com alguma qualidade de vida, os anos que nos restam. Não ser rejeitado pela família ou pela sociedade, mas acolhido, de braços abertos, pelos nossos familiares ou pelas instituições vocacionadas para nos acolher e cuidar de nós. É o desejo de termos o conforto e bem-estar possíveis, a que cada ser humano tem direito e merece.
Apesar da eterna juventude continuar a ser um sonho da humanidade - a publicidade tenta manter esta quimera – com base nesta utopia, os mercados continuarão a lançar os produtos inúteis, para se tentar alcançar tal fim. O que é mais certo é que, todos os dias, ficamos mais velhos. Como diz o povo, “para novo, ninguém vai”. Os biólogos vão-nos avisando que “o corpo humano vai envelhecendo de diferentes formas, de acordo com os fatores genéticos e ambientais.
Na verdade, o desejo de vivermos para sempre, não é novo na humanidade. Já na história medieval encontramos descritas as lendas do Rei Artur, em busca do Santo Graal, prometendo uma vida imortal e saudável àqueles que bebessem dessa taça milagrosa. Tal quimera parece ainda permanecer bem viva nos nossos dias.
Porém, o que constatamos, sem margem de dúvida, é que temos visto nas últimas décadas, de uma forma fantástica, aumentar a nossa longevidade, sem paralelo na história da humanidade. De acordo com os últimos dados da OCDE, um português que nasceu nos anos vinte, do séc. XX, tinha em média uma esperança de vida de 36 anos. Os que nasceram em décadas posteriores, a maioria de nós, já contam com uma média de vida de 80 anos. Um aumento de cerca de quarenta anos foi o que ganhámos, devido ao evoluir da ciência médica e de significativas melhorias sociais.
Hoje, a pergunta que se coloca já não será tanto aumentar os anos de vida, mas sobretudo dar vida aos anos que nos for dado viver. Sendo assim, pode-se levantar uma questão que já se começa a colocar. Se, na realidade, o envelhecimento no nosso país é saudável, dentro dos parâmetros europeus, ou, cada vez mais, incapacitante? A este respeito, em estudos recentes, efetuados pela “Pordata” demonstra-se que os portugueses, equiparados aos cidadãos europeus, perderam anos de vida saudável, face a anos anteriores.
Estes dados preocupantes, merecem que os poderes políticos lhe prestem redobrada atenção, repensando o envelhecimento dos idosos, de uma forma cada vez mais séria. Quanto a nós, pensa-se mais em lançar projetos e mais projetos, obras e mais obras, esquecendo-se as necessidades mais básicas das pessoas com mais idade. Estes, geralmente, não querem apenas viver mais anos. O que mais desejam é uma melhor qualidade de vida que uma grande parte das reformas de miséria não lhes permite. Lares e remédios inacessíveis não se encontram ao seu alcance. Face a este panorama, julgamos que será já tempo de repensar o envelhecimento em Portugal, de uma forma séria. Em maré de eleições, não basta visitar os lares, hospitais e infantários, tirando lindas selfis e espalhando afetivos beijinhos. Do que mais temos necessidade é de não esquecermos os acutilantes problemas com que se debatem os nossos idosos, a única faixa etária que está a crescer no nosso país, em inverno demográfico.
Nas próximas décadas, como sabemos, a longevidade será uma certeza. Sendo assim, quem planeia, adequadamente, as respostas a esta questão social? Urge, assim, dar Vida aos anos de vida.
[email protected]