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Pais em tempo de Crises: Os pequenos e grandes traumas

Mário Freire - 06/09/2018 - 9:23

Um trauma é um dano que ocorre em consequência de algum acontecimento ou experiência que causou um sofrimento, seja ele de natureza física ou psicológica. Particularmente importantes são os traumas sofridos na infância e que podem originar sequelas psicológicas para o resto da vida.
Lenore Terr é uma psiquiatra que é conhecida pelos seus trabalhos no âmbito do stress pós-traumático em crianças. Ela distingue dois tipos de traumas: os que se referem a episódios únicos e imprevisíveis como um acidente de automóvel em que houve, por exemplo, a morte de pai ou mãe…, e os que dizem respeito a experiências persistentes como situações de violência familiar, humilhação frequente, bulliying… Claro que pessoas diferentes podem viver os mesmos acontecimentos de maneiras diferentes. Ora, verificou-se que, por mais traumáticos que sejam esses episódios, os que originam consequências mais sérias de saúde mental são os de natureza repetitiva, as quais podem prolongar-se por anos e, às vezes, pela vida fora.  
A série televisiva da RTP 2 que passou há meses, “Crónicas, Uma História Familiar”, ilustra situações que caberiam no âmbito desta coluna. Ora, de entre elas, destacaria aquela em que um filho se vê, na fábrica do pai e na qual trabalhava, constantemente desmerecido pelo que fazia; as suas sugestões de inovação eram sistematicamente desvalorizadas e contrariadas; enfim, havia uma permanente ausência de reconhecimento por parte do seu progenitor de todo o empenho e entusiasmo que ele punha na sua actividade na fábrica. Sugere-se, ainda, que este desdém do pai pelo trabalho do filho viria desde a infância. Incapaz de lidar com esta situação, após vários recomeços, já fora da tutela do pai, o filho acaba por suicidar-se. 
Não caindo nestas situações extremas, quantas vezes os pais estão mais atentos às pequenas coisas más que os filhos praticam e que com elas constantemente os confrontam (não deixando de considerar a justeza de algumas dessas chamadas de atenção), e se esquecem de valorizar os seus pequenos êxitos, seja uma classificação que trazem da escola ou uma melhoria em relação à classificação anterior, seja uma determinada acção que eles praticaram, dentro ou fora de casa, e que merece ser realçada.
O elogio justo e parcimonioso, em vez da humilhação frequente e do ralho destemperado, fortalece o corpo e dá ânimo para que se seja melhor no presente e no futuro.

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