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Pais em tempos de crises: Eu sou o filho preferido de meus pais!

Mário Freire - 18/01/2018 - 9:33

Nem sempre a relação entre irmãos é a melhor. E quantas vezes ela é consequência da preferência que os pais manifestam por um dos filhos?! Ora, ser o preferido dos irmãos origina ciúme e pode ter consequências significativas na construção da personalidade dos filhos. Esta é a opinião de Catherine Sellenet, professora universitária, psicóloga clínica e socióloga.  
Aquilo que somos resulta do que herdámos, dos factores genéticos que recebemos dos nossos pais mas também, da qualidade das interacções que tivemos, principalmente durante a infância e a adolescência e que nos tornaram em seres únicos. E dessas interacções, as que maior impacto tiveram foram as estabelecidas com as pessoas mais próximas – os pais e os irmãos.
Ser o preferido entre os irmãos é uma situação que é vivida todos os dias e supõe ser colocado, no que é, no que diz e no que faz acima dos outros, atribuindo-lhe qualidades que tentam justificar tal preferência.
Esta circunstância dos filhos preferidos, nos dias de hoje, com a crescente recomposição das famílias, em que há irmãos, meios-irmãos (filhos de uma relação anterior de um dos cônjuges e filhos da actual relação) e quase-irmãos (filhos de uma relação anterior de cada um dos actuais cônjuges), assume uma importância cada vez maior. 
A preferência dos pais por um dos filhos vai contra a norma que recomenda que os pais tenham um igual apreço por cada um deles. Ora, a preferência parental é fermento de rivalidade e de ciúme e vai inquinar a relação fraterna. Se, durante muito tempo, os estudos da parentalidade se centraram mais nas relações entre pais e filhos, hoje, sem descurar tais relações, elas voltam-se, igualmente, para as relações entre irmãos e os seus impactos nos percursos escolares e nas suas personalidades. 
Um filho preferido, diz Catherine Sellenet, pode gerar uma relação sufocante e alienante, habituar-se a vantagens afectivas e materiais, a ser demasiadamente valorizado, tolerando-se tudo o que ele possa fazer. Isto pode fazer dele um narcisista, muito preocupado consigo próprio e com a sua imagem e, mais tarde, ser confrontado com a dura realidade que não se coaduna com vida fácil a que o habituaram, gerando nele grandes frustrações. Ao invés, o filho que não é preferido, poderá vir a ser beliscado na sua autoestima, ficando mais vulnerável quer aos desafios que a escola lhe coloca, quer aos embates que irá encontrar na vida. Muitos destes filhos tornar-se-ão, segundo Catherine Sellenet, pessoas isoladas, tristes e ressentidas. Cabe aos pais, padrastos e madrastas reflectirem sobre esta realidade e tirarem as respectivas consequências. 

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