Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Pais em tempos de crises Modificações relacionais dos pais quando nasce

Mário Freire - 22/10/2020 - 9:19

Daphnée Leportois é uma jornalista francesa que foi editora do jornal digital Slate. Ela escreveu há tempos um artigo em que se debruçou sobre as modificações relacionais dos pais quando ocorre o nascimento de um filho. Daphnée refere o caso de uma pessoa conhecida que, tendo uma amiga a quem lhe nasceu um filho, fez alterar radicalmente a sua amizade para com ela. 
É certo que o nascimento de uma criança faz reconfigurar a célula conjugal, quer tornando-a mais sólida, quer debilitando-a, não se excluindo, por vezes, o risco de rotura. 
Mas, também, o ambiente relacional que envolve o casal pode ser significativamente modificado, passando a ser os encontros com os amigos menos frequentes. No entanto, havendo verdadeira amizade, com interesses e valores comuns, os problemas serão ultrapassados. A jornalista, no entanto, alerta para o facto de as conversas com os amigos se centrarem essencialmente nos filhos quando, por vezes, os interlocutores têm outros temas de interesse para falar. Acontece, até, que estes podem nem ter filhos, desejando-os, porém, e ao ouvir constantemente falar de crianças, ser-lhes penoso. Por isso, ela adverte para que a maternidade não contribua para pôr fim a amizades.
Há, fundamentalmente, que dar relevo ao que as duas partes, os que têm e não têm filhos, possuem em comum, semelhanças e interesses mútuos além das crianças, em vez de destacar tudo o que tem a ver com os filhos.
A situação, porém, também pode, segundo Daphnée, colocar-se ao contrário: se os amigos não abrirem espaço para a nova situação do casal (ou de uma mãe solteira), limitando-se apenas a ser um espectador do outro, pode perguntar-se por onde anda a amizade que antes existia? Se não houver a compreensão, e até a disponibilidade, para a nova situação de quem agora está a viver uma vida diferente, com todas as alegrias e dificuldades, poderá falar-se em amizade?
 Há, ainda, casos de pessoas, solteiras ou não, sem filhos, gostarem de acompanhar o desenvolvimento dos filhos dos seus amigos, passando a ser o “tio” ou a “tia”, o “padrinho” ou a “madrinha” da criança.
Enfim, o nascimento de uma criança numa família pode servir para nos testarmos nas relações com os outros mas, igualmente, avaliar das relações dos outros para connosco.

[email protected]

COMENTÁRIOS