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Pais em tempos de crises. O valor que se atribui aos factos e às pessoas

Mário Freire - 14/03/2019 - 9:32

Joshua Bell é um violinista virtuoso dos Estados Unidos que fez a sua estreia no Carnegie Hall de Nova York em 1985 com a Orquestra Sinfónica de Saint Louis. O instrumento que Bell usa é um violino Stradivarius, feito em 1713, o qual foi comprado por este violinista por cerca de quatro milhões de dólares.
Bell tinha actuado em Janeiro de 2007, no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custavam mil dólares. Dias depois, Joshua Bell, vestido com jeans, com uma camisa e um boné, desce a uma estação de metro no centro de Washington, de manhã, tira o violino da mala, colocou uma caixa de cartão na sua frente, para os que quisessem, deixarem algumas moedas e, durante 45 minutos, tocou com o seu entusiasmo e virtuosismo. Acontece que as pessoas passavam indiferentes ao som do violino e poucas foram aquelas que se detiveram para o ver e o ouvir tocar; os mais curiosos foram, até, as crianças que forçavam os pais para dele se aproximarem. Ao fim dos 45 minutos da sua actuação, o violinista arrecadou apenas 32 dólares e 17 cêntimos.
Desde então corre no You Tube esta cena, tendo sido feitos, depois, vários PPS sobre o acontecimento. Esta foi uma iniciativa do jornal Washington Post com a finalidade de lançar um debate sobre “valor, contexto e arte”.
Ora, acontece que só damos valor às coisas ou aos factos quando eles estão num contexto. Bell, no metro, “era uma obra de arte sem moldura; um artefacto de luxo mas sem etiqueta de marca”, como se diz num PPS feito sobre este acontecimento.
Podemos, então, perguntar: quantas situações ocorrem na nossa vida que, sendo únicas, não lhes damos importância só porque elas não estão etiquetadas como sendo de marca, de valor? Afinal, o que é que tem valor? Será que os nossos gostos, sentimentos, juízos não serão condicionados pelo mercado, os media, a moda? Aquilo que não tem preço, quase sempre, é o mais valioso como sejam a amizade, o salvar uma vida, um pôr de sol, uma flor à beira do caminho… 
Perguntar-se-á: o que tem tudo isto a ver com o título desta coluna? Uma conclusão poderia ser retirada do concerto de Bell, no metropolitano: é a de despertar nos filhos a atenção pelos pormenores (que, por vezes, são coisas essenciais) daquilo que nos rodeia, seja na natureza, nos gestos que outros manifestam, nas suas linguagens não-verbais, mas que nos tocam a sensibilidade. Esses pormenores poderão tornar-se, mais tarde, momentos inesquecíveis, independentemente dos contextos em que eles tiveram lugar.  

 

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