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Envelhecimento: continuidade ou ruptura com o passado?

Mário Freire - 26/10/2017 - 9:45

Cada vez mais as famílias e a sociedade se confrontam com um número crescente de pessoas de idade. Ora, uma pessoa idosa é levada a reorganizar a sua existência consoante as limitações que enfrenta. E estas põem à prova a sua própria maneira de ser, a sua identidade. Como lidar, então, com o envelhecimento? 
Vincent Caradec, especialista em questões de envelhecimento, já citado em crónica anterior (“O grande teste da grande idade”), tenta responder a esta questão, dando-lhe várias respostas. Numa delas, a que actualmente parece ter maior número de seguidores, ele centra-se no processo e na experiência individual do envelhecimento na última parte da vida. Assim, como é que a pessoa se relaciona consigo própria e com o mundo que a rodeia, tendo em consideração as mudanças que está a sofrer? E essas mudanças são, fundamentalmente, a aposentação e, depois, o desenvolvimento de limitações físicas e intelectuais, o deixar de conduzir, a perda de amigos, a viuvez, o abando de actividades consideradas essenciais (por exemplo, dificuldade em ler, sair de casa…), a entrada numa casa de repouso, etc., etc. Todas estas experiências que tendem a ser sofridas na idade avançada põem em evidência tensões existentes e vão condicionar, em grande medida, o modo como se encara o envelhecimento: “ser ou ter sido”, isto é, estar mais centrado no presente ou no passado; “tornar-se velho ou ser velho”; “sentir-se integrado no mundo ou ser estrangeiro no mundo”. Claro que, estes modos de encarar o envelhecimento, se dependem das condições físicas da pessoa, em muito maior escala dependem das suas condições psicológicas.
Estas diferentes maneiras de a pessoa de idade avançada se definir reenviam, segundo Caradec, para dois modos de estabelecer a ligação entre o presente e o passado: para uns, há uma continuidade (“isto continua como dantes, apesar das dificuldades”); para outros, há um sentimento de ruptura na sua existência, tornando-se noutros, como que adquirindo uma nova identidade (“agora já não sou como era dantes”). Para todos mas, especialmente para estes últimos, o não cortar com o espaço familiar, aquele lugar cheio de lembranças, traduz-se num factor de estabilidade. Mas também o empenhamento da família, o aprender novas coisas, o implicar em actividades, se possível, com compromisso, podem dar-lhes ânimo para enfrentar as dificuldades, devolver-lhes a vontade de viver e afastá-los da solidão.
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