É entre estas duas situações que decidimos, muitas vezes, o que devemos ou não adquirir. E é entre elas que Philippe Moati, professor de Economia na Universidade de Paris VII, coloca o problema do hiperconsumo, numa entrevista à revista francesa “Limite”.
O hiperconsumo é o estado supremo da sociedade de consumo. Este, ocupando o lugar central quer na vida social, quer na vida individual, pode interferir de tal modo na maneira de sentir e de agir das pessoas, que os afectos e as relações interpessoais não ficam de fora. Ele promove, segundo o entrevistado, uma cultura associada a valores em que o individual e o desejo são os prevalecentes. Além disso, segundo os estudos que o investigador está a levar a cabo, os jovens são muito menos sensíveis às questões ambientais do que à satisfação de seus desejos. Sendo menos apegados à propriedade do que os mais velhos, entendem que ela é um obstáculo à satisfação dos seus prazeres.
Moati chega mesmo a dizer que “o hiperconsumo está na origem da “era do vazio.” E isto porque aquele diverte, desvia o pensamento de raciocínios complexos e da espiritualidade. Por outro lado, não exige esforços e oferece uma gratificação instantânea, deixando-nos, porém, desamparados quando surge algo que nos coloca frente a um obstáculo em relação ao qual temos que tomar uma decisão de fundo.
Tudo isto é o reflexo de se dar maior ênfase ao desejo do que à necessidade. Esta traduz uma dimensão funcional dos produtos, enquanto que o desejo é essencialmente subjectivo. E é nessa característica que a oferta de algo que quer apresentar-se para venda não se limita à funcionalidade do objecto em si, à razão imediata e útil da sua utilização mas fazendo apelo a outro tipo de necessidades, de ordem imaterial e subjectiva, como seja um estatuto mais elevado. Um adolescente pode gerar um pequeno (por vezes, grande!) problema familiar não comprar uns ténis Louis Vuitton ou Reebok (passe a publicidade) em vez de uns outros, mais baratos, que fariam a mesma função, não sendo, no entanto, de marca reconhecida. E essa circunstância pode, até, fazê-lo sentir-se discriminado perante os colegas.
Eis, pois, um campo vasto onde as organizações que lidam com jovens têm um papel vasto a desempenhar, não se esquecendo, porém, que os pais são os primeiros modelos dos filhos, aqueles que, em primeira instância, eles tendem a imitar.
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