Foi notícia, em Maio de 2017, a aventura invulgar de uma menina de 4 anos que, em plena noite, deixou silenciosamente a casa dos avós para se juntar a um menino de idêntica idade, o seu “namorado”. Ela teria andado, en chinelos e em pijama, mais de uma hora. Se bem que nada nos permita afirmar que esta fuga nocturna tivesse sido a expressão de sentimentos amorosos, este episódio deu origem a um debate sobre se uma criança com aquela idade pode experimentar sentimentos daquela índole. Ora, a literatura científica é, segundo Raphaële Miljkovitch, professora de Psicologia do Desenvolvimento, muito pobre ou mesmo inexistente em relação a este tema. Focamo-nos mais nos sentimentos amorosos da adolescência, enquanto que nas crianças nos interessamos pelas relações de amizade. Será que nós, adultos, interroga-se Miljkovitch, consideramos os sentimentos amorosos como necessariamente acompanhados de alguma forma de sexualidade e que, quando esta não existe, não há amor? Um ponto de vista parece consensual entre psicólogos e psiquiatras: os sentimentos da criança, quaisquer que sejam a sua natureza, vão evoluindo à medida que ela se desenvolve.
Entre os três e os cinco anos, a criança apura as suas capacidades psicológicas, ganha maturidade e autonomia em relação aos pais, domina mais a comunicação verbal. Por outro lado, ela entra no estádio da construção sexual. Esta construção tem suscitado múltiplas teorias explicativas. Referirei, apenas, que os factores biológicos, bem como a identificação parental, com o parente do mesmo sexo, virão dar consciência à criança de que as meninas tornar-se-ão mulheres e que os rapazes tornar-se-ão homens. Entre os 6 e os 11 anos, as crianças tendem a acompanhar mais com os pares do mesmo sexo e a opor-se aos do sexo oposto, o que não impede de ter sentimentos de amizade para com estes. Finalmente a adolescência marca uma profunda transformação, onde os sentimentos amorosos são agora semelhantes aos sentimentos nos adultos.
Investigações têm analisado as relações entre a criança com os seus pais e a qualidade dos vínculos que ela terá com seus pares. Ora, tem-se concluído que as crianças cujos pais são calorosos e positivos são, igualmente, mais calorosas e positivas em relação a outras crianças e manifestam maior segurança. Sabemos que as crianças seguras são mais populares que as crianças inseguras. Como resultado, sugere Raphaële Miljkovitch, podemos imaginar que elas também suscitem uma maior afectividade.