Pais em tempos de crises: A crónica nº 400
Mário Silva Freire - 08/09/2022 - 9:55
Foi em Dezembro de 2012 que começou esta rubrica no Jornal Reconquista. A causa próxima foi o termo de uma experiência vivida durante cerca de onze anos, como voluntário, numa Casa de Acolhimento de crianças e adolescentes. Fazia o apoio ao estudo nas faixas etárias dos 10-15 anos (5º-9º anos de escolaridade). Tratava-se de um apoio essencialmente individualizado.
Pude verificar, então, que as dificuldades principais, de natureza escolar, que estas crianças e adolescentes tinham resultavam, numa causa imediata, de não entenderem o texto que liam e, até, de manifestarem problemas na própria leitura. Por outro lado, o cálculo, nas operações mais simples, como o da soma ou multiplicação, estava-lhes praticamente vedado. Tudo isso, iria ter repercussões profundas nas aprendizagens subsequentes.
Ora, estando ali como pessoa que não pertencia quer à instituição de acolhimento, quer à escola, e que poderia ser avô de uma boa parte deles, estes sentiam-se mais à vontade, embora nunca o tivesse solicitado, para falarem dos problemas que os afligia. Quantas crianças vi, dos 10-12 anos, a chorar, dizendo-me que o pai e/ou a mãe nunca os vinha visitar ou que na escola eram postos de lado ou “gozados” pelos colegas! Outras vezes, era uma revolta contida que manifestavam em relação aos familiares mais próximos ou uma agressividade para com aqueles que, na instituição, mais de perto lidavam com eles. E aqueles dias como o do Pai, da Mãe, na época do Natal, em que a própria escola incentiva a fazer algo que tivesse a ver com a família?! O que tinham eles para escrever, para desenhar… sobre ela?
Pude ver, sentir, que a grande maioria daquelas crianças e adolescentes tiveram histórias de vida muito, muito difíceis, de abandono, negligência, violências de vária ordem. É certo que a instituição fazia o melhor que podia, dando-lhes as respostas julgadas mais adequadas. No entanto, nunca poderia dar-lhes aquilo que eles mais necessitariam: um pai e uma mãe que se relacionassem adequadamente quer entre si, quer entre eles e os filhos. Estes eram as vítimas de um sistema familiar e social com causas múltiplas.
Resolvendo terminar a minha participação nessa instituição, senti que o muito que ali tinha observado e aprendido poderia ser desenvolvido segundo vários pontos de vista. Surge-me, então, a ideia de, como beirão nascido em Monforte da Beira, concelho de Castelo Branco, nesta cidade vivendo parte da minha adolescência, estudando no então Liceu Nuno Álvares, propor ao Director do “Reconquista”, senhor Pe. Agostinho Dias, uma rubrica sobre a temática que encima todas as crónicas. Ele aceitou o risco de me publicar. Para mim, foi também um desafio pois, não sendo psicólogo clínico, terapeuta familiar ou sociólogo, abordei assuntos dessas áreas. Socorri-me de estudiosos das matérias abordadas, citando-os, não deixando de expor o meu ponto de vista.
Agradeço, reconhecido, a confiança que o senhor Diretor do “Reconquista” depositou em mim, assim como as mensagens que fui recebendo de leitores. Tudo isso contribuiu para que chegasse à crónica nº 400, o número redondo com o qual encerro a minha participação neste tema, tão crucial como complexo da sociedade contemporânea – o da família. Bem hajam pela paciência por me terem lido.
A crónica n.º 400
O nosso colaborador, Dr. Mário Freire, com a sua crónica n.º 400, resolveu pôr fim a estes temas, sobre os problemas da educação das crianças e adolescentes dos 10 aos 14 anos. Iniciadas em 2012, foram 10 anos em que procurou ajudar os leitores do “Reconquista”, alguns com filhos, ou netos nestas idades, a acompanhá-los. Lembro-me daquele leitor taxista na margem sul que confessava que “recorto sempre estes artigos do Dr. Mário Freire e levo-os ao meu filho para que ele eduque bem os meus netos”. Ou daquele emigrante em França que dizia: “ É sempre por onde começo a leitura do jornal. Tenho dois filhos adolescentes e vivemos num ambiente de mistura de civilizações “trés dangereu”. Enfim testemunhos de quem sentia a utilidade destas crónicas. Em nome destes leitores resta-me agradecer ao dr. Mário Freire a sua colaboração gratuita, e dizer-lhe que apesar dos seus 85 anos , esperamos ainda que possa colaborar com outros temas. Estamos abertos a este beirão, natural de Monforte da Beira, que nos quis enriquecer com a sua sabedoria.
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